agosto 14, 2003

Anjo

Acreditam no destino? Eu acredito, sempre acreditei e começo a duvidar do que é o destino…

Ontem sai as 5 do trabalho como de costume, fui beber uma cola no café em frente de minha casa, não vou lá muitas vezes depois do trabalho, mas ontem fui, precisava de desanuviar a cabeça, porque infelizmente ontem meteram-me a trabalhar (sacrilégio… o melhor empregado da fabrica a fazer trabalhos duros só porque o seu trabalho estava completamente orientado ao contrario do resto da empresa). Estava sentado numa das mesas, a olhar desinteressado o leve fluir do fumo do tabaco, ouvindo por detrás de mim o som da televisão, mas a musica não me interessava e perdia-me nos meus pensamentos mais recônditos. Sem eu dar por isso entrou alguém no café e sentou-se na mesa em frente a minha. Confesso que estremeci, era uma loirinha ultra querida com uns olhos azuis enormes, uma pele já um pouco morena, vestia um top azul celeste, e os braços davam vontade de beijar, tinha uns lábios fininhos, mas bem delineados… Era lindíssima!!!
A dado momento os olhos dela cruzaram-se com os meus, ela sorriu (estranho) e eu desviei o olhar envergonhado… Ela pediu o que queria a dona do café (ainda não sei o nome dela) e o som da televisão voltou a reinar. A dona trouxe o pedido que ela tinha feito (uma torrada e um santal, adoro santal, será destino?). Acendi novamente um cigarro (tinha que ser não é?) e pedi um café a dona. Quando a loura acabou o seu lanche abriu a carteira e tirou um cigarro, levantou-se e aproximou-se de mim pedindo-me lume, acendi-lhe o cigarro (nos reinos dos Algarves dizem que só se acende um cigarro ás putas) ela agradeceu, e sentou-se.
As duas começaram a falar (mulheres… não podem estar muito tempo sem falar né?) primeiro sobre o tempo, o calor infernal que se faz sentir, os incêndios… as tretas do costume, apenas não queriam que o espaço estivesse envolto em silêncio e claro… a língua feminina como todos sabem é um órgão autónomo do resto do corpo, nunca descansa e funciona sem ser necessária a interacção com qualquer outro órgão, nem o cérebro, órgão sem o qual a língua masculina é incapaz de funcionar. A dado momento começaram a falar sobre o que a loura achava da vizinhança (pelos vistos está cá a pouco tempo), e confesso que gostei de saber que agora existem vizinhas assim, coisa que nunca aqui houve.

Isto de há uns 3 anos para cá mudou radicalmente, eu ainda sou do tempo de ir roubar castanhas a quinta das nespereiras (hoje é um condomínio fechado de luxo), de ir no verão para o descampado que existia entre a minha casa e o Ricardo Galo onde havia o poço (hoje existem lá dezenas de prédios e nasceram lá duas ruas), de ir para a pista de cross improvisada em frente ao Manuel pereira (hoje tem lá uns 6 prédios e uma rua), de ir para a “casa assombrada” ao fundo da rua (apenas a demoliram quando uma drogado lhe pegou fogo a uns anos, é terra batida apenas), de entrarmos a socapa na fábrica fechada que havia em frente de minha casa (hoje existem lá 3 prédios estando na esquina o tal café onde a historia se passa), e de ficar a olhar da minha janela o Rottweiller do Tovim que assustava as pessoas que passavam ao lado do muro dele (hoje existem lá dois prédios semi-luxuosos) …
Eu sou dos antigos, tirando três anos em que vivi na casa da praia (os dois primeiros, e o ano passado quando a minha casa foi ser remodelada) toda a minha vida foi passada aqui, e de há três anos para cá, tudo mudou, a minha casa é das poucas que sobreviveu e quase que parece o centro onde tudo se move em redor (felizmente, nesta zona é proibido fazer prédios superiores a três andares visto ser a zona histórica, por isso a casa esta ao nível dos prédios em redor).

Pois bem… Continuando...

A dona do café começou a dizer que apesar de não viver ali, algumas pessoas iam lá ao café e que ela ia gostar pois eram todos muito simpáticos, e nisto em tom de brincadeira pergunta-me o nome (ela também não sabia o meu nome) e apresenta-nos. Disse que não conhecia os novos vizinhos, porque raramente ia ao café, e falamos um pouco dos velhos tempos que só eu conhecia (claro, até me senti velho, apesar de ser o mais novo, embora não saiba a idade da loura). Entrou um cliente e a dona foi atende-lo, continuei a falar com a loura: gostei dela e acho que ela gostou de mim, riu-se, senti-me bem e a dado momento começou a passar uma musica na televisão que é simplesmente a minha favorita do momento “The White Stripes - Seven Nation Army” ela disse com uma voz quase que musical (tem uma voz bonita) “grande som!” eu taurino como sou disse que a musica é excelente mas detesto o vídeo, ao que ela respondeu “também eu… é muito disco, não achas?”
Eu disse “Ya…” mas no meu intimo pensei “É claramente disco, é isso que eu digo sempre…” e durante o resto das quase duas horas que estivemos a conversar não deixei nunca de pensar: “Será este o Anjo que espero há cinco meses?”

Posted by almahperditae at agosto 14, 2003 10:29 PM
Comments

Ohh lindo nunca se sabe.. as xs as coisas acontecem das formas mais inesperadas :)

Posted by: M.J at agosto 14, 2003 10:56 PM