O sol estava escondido. Entrei no café que me convidava a tomar uma refeição em condições e sentei-me ao balcão, sozinho porque assim perco-me em mim e descubro e combato os dragões de mim. Os clientes do costume, as conversas da bola, quem ganha e perde, quem vai aonde e quem recebe quem. Estas conversas fascinam-me, deixam-me a pensar que assim os dias arrastam-se, as pessoas convivem, combatem a solidão dos dias (não pude deixar de reparar que era Domingo, aquele dia em que se deveria almoçar em família) e não se entregam. Fecham a sua Alma em si, e fogem do desespero e do Medo, sem enfrentar os monstros que gritam timidamente nos seus íntimos camuflados. Comi e paguei, sai. Acendi um cigarro e enfrentei a multidão que se estendia pela aldeia. Ouvia os gritos das crianças, os pais preocupados «Olha os carros.» Gritavam como se o seu sangue e a sua carne estivesse descontrolada e indefesa as agressões do mundo exterior. Porque estava. A sua carne expelida em gritos de prazer e dor tinha vida própria, e eles queriam a todo o custo proteger a sua carne, o seu sangue, a sua alma…
Entrei no café em frente, era um café diferente apenas isso, queria descobrir os meandros da aldeia, todos os ventres de todos os cafés, de todas as esquinas, viver no seu íntimo, para beber todos os seus ensinamentos, e pedi uma bebida. Nada de especial apenas o costume, uma coca-cola, é sempre o que bebo quando não sei o que beber, é o meu refúgio conhecido. Sentei-me numa mesa e olhei o telemóvel, o meu cordão umbilical com o mundo conhecido, com o meu mundo, com o mundo longe daquela aldeia vibrante. Tinha algumas mensagens e respondi, não estava só, apesar de o desejar, para mais despido me vestir com os odores e os ruídos desconhecidos. Ainda bebi outra cola, ainda comi mais um bolo, não queria, apenas tinha tempo de sobra e queria ficar ali mais tempo, abrigado da chuva e do frio que lá fora corruia os corpos encolhidos que via passar através da porta envidraçada. As conversas não variavam muito do outro café, nas aldeias geralmente todos se conhecem e todos vivem o mesmo dia a dia. A escolha de um ou outro apenas varia por simpatias, por amizades, ou talvez pelo hábito. Vão a um e não vão a outro porque habituaram-se a esconder-se num deles, e o dono, que tem que zelar pela sua sobrevivência, trata a todos por igual, tal como o outro dono (provavelmente nem se dão, fruto de competições financeiras e de clientela), e as pessoas habituam-se, são bem tratadas num deles, para que ir ao outro? É mesmo em frente, um passo, talvez dois, apenas uns dez segundos a mais ou a menos, vinte se um carro rasgar o silêncio.
Bebi mais um café. Olhei as caras todas iguais, a esta hora já não eram os solitários, já eram os idosos, os vizinhos do lado que vinham beber um café depois do almoço. Casais apenas, idosos na maioria, um casal novo, namorados, talvez não namorem a muito tempo, andam perdidos a viajar, a descobrirem-se a si (se namorassem a algum tempo não se descobriam no meio da multidão a servir de segurança), e não reparam que estão numa aldeia, vieram ver a aldeia que se esconde no meio do Mundo civilizado, nem reparam que se encontram numa aldeia, apenas entram para almoçar, não reparam que estão numa aldeia, não vêem o sofrimento das pessoas, não reparam que estão numa aldeia, estão isolados no seu namoro recente. Vivem para o outro na esperança que alguém viva para eles.
Não reparam que estão numa aldeia.
reconheço a personagem...mas nao a aldeia... :))
Posted by: ariana at novembro 12, 2003 06:20 PMpor acaso até entras nesta 1ª parte... :P por isso sabes mt bem qual a aldeia... :P
Posted by: ALMAh Perditae at novembro 12, 2003 07:37 PM