novembro 16, 2003

A Aldeia (Conto - 2ª Parte)

(continuação de...)

Paguei e sai.
A chuva tinha cessado por um tempo indeterminado e fui conhecer as ruas. Vaguei no meio da multidão, examinava as suas caras, imagina os sofrimentos e alegrias por baixo das suas roupas escuras de tom outonal, e via-os dirigirem-se ao café, ao quiosque do fim da rua, para uma casa qualquer, para um sitio qualquer… Não sei para onde iam e isso também não me interessava, o que me fascina é o agora, o momento preso no Tempo em que se cruzam por mim, em que as consumo através da sua expressão, das suas dores e sorrisos escondidos. Fui até ao jardim, pensei em ir até a beira do rio, ver o seu calmo rumar para o Oceano, sentar-me num qualquer canto e observar, e fumar cigarros na esperança dum raio de Sol furtivo que me aqueça por um tempo efémero. Mas a chuva é persistente, e resolveu reaparecer para mostrar toda a sua glória. Voltei atrás.
Perdi-me tempos incontáveis no quiosque, abri revistas chamativas, e pousava-as no mesmo sítio, abrigava-me da chuva como todas as outras pessoas que se ficavam por lá. Apesar de todas elas não se demorarem muito, tinham aonde ir, estavam a viver a pressa, tinham que sair, e por isso depressa se iam embora enfrentando a chuva fria e indiferente aos corpos encolhidos. Apenas eu e mais uma outra pessoa lá nos demoramos, o outro era um arrumador que actuava no parque de estacionamento em frente, mas tinha tirado uma folga para se abrigar da chuva, não pude deixar de me sentir constrangido, afinal só eu e ele estávamos perdidos, e vagando sem destino… Mas continuei ali, sentia-me protegido e seduzido pelas revistas expostas, queria comprar uma, mas não sabia qual, afinal tinha que ser algo bastante completo, visto que leio demasiado rápido, e ir para um café com uma revista que ia devorar em vinte minutos, não preenchia o tempo que tinha em mãos. Abri uma revista isolada num canto, já gasta pelos dedos incontáveis que a tinham folheado, e perdi-me no seu mundo. Perdi-me demasiado tempo (a leitura tem o condão de nos transpor para um Universo paralelo), tanto tempo que o rapaz do quiosque me veio avisar que não podia ficar ali a ler a revista. Pedi desculpa e paguei a revista, visto que era aquela mesmo que ia levar. O rapaz foi meter o dinheiro na caixa registadora e depois veio pedir-me desculpa, mas eu disse que não havia problema nenhum, e fiquei a conversar com ele, muito tempo, a minha terra não era desconhecida para ele, já aqui trabalhou durante seis meses, falei-lhe do pinhal de Leiria, de S. Pedro, e ele conhecia tudo, disse que vivia num sitio lindíssimo, e quando pode ainda da um saltinho até S. Pedro visto que a praia é lindíssima. Achei curioso o facto, afinal o nosso Mundo, é realmente uma aldeia, por mais distantes que estejamos das nossas raízes encontramos sempre alguém familiar, alguém que conhece a nossa terra, alguém que tenha algo em comum com a gente, e mesmo no meio da maior metrópole, cada rua pode ser uma aldeia, onde todos se conhecem, podemos estar perdidos numa qualquer cidade enorme e olhar as pessoas e ver que afinal é uma aldeia, que apesar dos modernismos, do alienamento, do stress, do lufa-lufa do dia a dia, as pessoas ainda interagem como se numa aldeia vivessem, no café sempre igual, no quiosque sempre igual, no sorriso partilhado, na conversa de ocasião, as pessoas ainda comunicam, mesmo que a solidão seja a nossa única companheira.

Continuava a chover. Na paragem do autocarro as pessoas amontoavam-se no pequeno cubículo para se abrigarem, quando um autocarro parava, as pessoas que saíam dele, saíam a correr e abrigavam-se no primeiro ponto que encontrassem, geralmente o quiosque. Compravam tabaco, compravam o jornal do dia, qualquer coisa para se desculparem de estar ali, para justificar a sua intromissão naquele espaço. Foi quando a vi. Vestida de negro, sóbria, e com a beleza que sempre a caracterizou, há muitos anos que a conheço, que a conheci, já nos perdemos e reencontramos, e sempre bela, sempre com aquele charme que sempre enlouqueceu os homens, sempre com aquele sorriso que sempre adorei, saiu a correr com os cabelos louros a esvoaçarem e entrou naquele espaço. Não me viu, não olhou para ninguém, apenas entrou desesperada com a chuva a molhar-lhe o corpo quente por debaixo da roupa e demorou tempo a recompor-se, a habituar-se ao abrigo. Foi quando a interpelei, olhou para mim e sorriu, surpresa por me ver ali, o que estava ali a fazer? Não estava a fazer nada, andava a descoberta perdido, à espera. E ela? Ia para casa, tinha que estudar, tinha chegado à pouco no expresso, costuma vir mais tarde, mas no dia seguinte tinha um exame, tinha vindo mais cedo, que ia fazer eu? Nada. Esperar apenas. Quanto tempo? Não sei. Vamos então beber um café, meter um pouco a conversa em dia?
Fomos.


(continua...)

Posted by almahperditae at novembro 16, 2003 12:07 AM
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