novembro 20, 2003

A Aldeia (Conto - 3ª Parte)

(continuação de...)

Sentei-me a sua frente e reparei que ainda mantinha a beleza que sempre a caracterizou, acho que ela reparou que a estava a avaliar e desviou os olhos de mim com um sorriso tímido. Achei-me estúpido, e perguntei o que queria, café respondeu ela e levantei-me e fui ao balcão pedir dois cafés. Sentei-me novamente, e acendi um cigarro, não perguntei se podia fumar, senti-me ainda mais parvo por não ligar a estes pormenores de boa educação, mas como ela não disse nada, fingi que não se passava nada, e insultei-me a mim mesmo violentamente. Perguntei-lhe como ia a vida dela, esta a acabar o curso, é o ultimo ano, e devolveu-me a pergunta, eu respondi que estava tudo no mesmo, perguntou-me se já namorava e eu respondi que não, tinha acabado, as coisas correram pessimamente e devido a isso tinha passado um inferno, porque me tinha custado muito perder aquela pessoa, e ela? Ela tinha também acabado a pouco tempo, mas as mulheres são mais fortes que nos homens, e mesmo que lhes custe sofrem em silêncio, não tinha ninguém em mente, não queria ninguém por enquanto, queria tempo e meter as ideias no sítio, eu disse que compreendia, afinal tinha passado pelo mesmo, tinha andado meses assexuado, sem desejos, nem interesse em relações, e isso fez-me muito bem, porque agora estava livre, e finalmente preparado para uma nova relação. Se há alguém em mente? Não sei. Talvez, talvez não. O tempo o dirá. Sim. Gosto dela e muito, cada dia que passa descubro mais coisas fascinantes nela, mas as coisas não podem entrar em loucuras descontroladas, e o tempo é sempre um aliado. Primeiro estou eu, tem que ser. Ela andava a descobrir-se, a viver sozinha sem ter aquele contacto diário mesmo que por telemóvel com alguém. Lia muito, ficava horas perdidas a sonhar em cima da cama, disse-me que se lembrava do passado, e dos erros que tinha cometido, lembrava-se as vezes de mim, tinha gostado de mim, achava-me uma pessoa divertida, inteligente, e gostava dos tempos em que andávamos sempre juntos, em que íamos para casa dela, quando combinávamos ir estudar qualquer coisa e nunca ninguém estudava nada porque eu só fazia merda e metia toda a gente a rir-se. Disse que eu sempre a fascinei, porque por baixo do gajo maluco, ela via alguém sensível, e quando ela estava triste eu primeiro falava com ela, dizia-lhe coisas que a faziam sentir melhor e quando ela estava quase bem, fazia-a rir com as minhas parvoíces e tudo desaparecia. Tinha saudades minhas e foi bom reencontrar-me. Gostei de a ouvir. Fez-me bem ao ego, e mostrou-me que afinal a minha ex é mesmo a única excepção, ela é que esta enganada, e eu afinal não sou merda nenhuma.
Recebi uma mensagem. Tinha que ir. Ela sorriu, e prometemos não perder mais o contacto, eu iria visita-la quando tivesse carro, quando ela fosse ao fim de semana a casa íamos beber um café. Qualquer coisa assim. Paguei, e saímos do café. Perguntei-lhe se havia alguma farmácia por ali, precisava de ir comprar uns comprimidos porque doía-me muito a cabeça disse eu, ela não sabia e fui ao quiosque já familiar perguntar, o homem foi simpático, e disse-me onde havia. Tinha que apanhar o 27, e era cinco paragens a frente. Esperei o autocarro com ela a meu lado, falamos um pouco, e quando o autocarro chegou demos um beijo de despedida e promessas de um novo café. Mais um beijo e quando ia a encostar a minha cara a dela via hesitar. Parecia querer dar-me um beijo na boca, fingi que não reparei, e despedi-me de vez e entrei no autocarro. Fiquei a olhar pela janela, e ela parecia estar triste, acenou-me com um sorriso e perdi-a de vista.
Deixei a aldeia para trás banhada por lágrimas do céu.

(continua...)

Posted by almahperditae at novembro 20, 2003 11:16 PM
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