novembro 23, 2003

A Aldeia (Conto - 4ª Parte)

(continuação de...)

O autocarro avançava aos solavancos, que me embalavam o corpo prostrado no assento sujo. Lá fora as nuvens cobriam tudo com um manto de lágrimas e escuridão. Olhava através da janela, via faces que passavam anónimas, e perdia tudo de vista a velocidade do tráfego das aldeias, tudo ficava para trás, tudo desaparecia e nada fazia sentido. Perdia-me nestes pensamentos, perguntava-me qual o significado de tudo isto quando…
Estrondo… Gritos… Silencio… O autocarro estacou violentamente, fui projectado para a frente, agarrei-me ao banco da frente e equilibrei-me. Que se passava? As pessoas levantavam-se e gritavam, pela janela viam-se pessoas que corriam na direcção do autocarro vindas de todos os lados, de todas as direcções. Toda a gente se precipitava para a rua, eu segui a multidão. Vi um homem perdido e aos gritos, com sangue a pender-lhe da testa ensanguentada, fumo e ferro retorcido na frente do autocarro. Tinha havido um acidente, um carro que foi abalroado pelo autocarro, e agora o seu condutor estava aos gritos na rua, desesperado, olhei o carro: lá dentro uma mulher jazia no seu caixão de metal com sangue a escorrer da boca, os olhos vazios abertos violentando toda a gente com o seu horror, a sua pele disforme, esmagada e cortada pelos ferros e vidros que esmagaram o seu corpo davam uma ideia de horror, de violência, de Morte em toda a sua crueldade e frieza…

(continua...)

Posted by almahperditae at novembro 23, 2003 08:12 PM
Comments