Senti uma tontura. Aproximei-me dos escombros do carro, afastei algumas pessoas que se interpunham com veemência, e sentia suores frios, um sufoco qualquer… Aproximava-me, não sabia porque, queria fugir, mas algo me puxava para o triste espectáculo da mulher morta. As faces assustadas das pessoas eram-me indiferentes, olhava para elas quando lhes tocava na cegueira, mas não via nada mais que um vazio. Perdi os sentidos.
Acordei num deserto. O Sol queimava-me a pele, mas eu tinha frio. Estava deitado na areia e não via nada tal a intensidade da luz. Levantei-me desnorteado e cerrei os olhos tentando perspectivar algo no meio do Nada. A meu lado, vermes contorciam-se e o seu frenesim sob o Sol escaldante fez-me estacar. Visco e peles e escamas… Tudo num aglomerado de decadência sob o Sol do deserto. Comecei a correr.
Corria que nem um louco, tentava fugir de algo que nem eu mesmo sabia o que era. Ainda há pouco estava numa aldeia, via as faces das pessoas e imaginava o seu vazio, comparava-o com o meu próprio vazio e agora estava no vazio, sem saber o que fazia aqui. Corria apenas, fugia de algo que eu mesmo desconhecia. Parei de correr. Ofegante, sentei-me na areia escaldante, mas apenas sentia um calor ameno na pele. A meu lado, sentou-se um Anjo. Falou-me de Amor, de esperança, mas eu nada ouvia, estava deleitado a olhar as suas asas. Faziam um efeito curioso: tinham penas de seda que se movimentavam para cima e para baixo ao sabor do vento e consoante a contracção e descontracção dos músculos que lhe saiam dos ombros. Era negro, enorme (perto de dois metros), com uns olhos azuis penetrantes, e um sorriso brilhante. Tinha cabelos de luz, que me adormeciam os sentidos, sei que me tocou, mas eu nada senti. Sentia apenas a sua presença e nem o seu abraço me acordou do sonho. Estava fascinado a olhar a sua pele de mármore, alva e brilhante, e a sua voz parecia um violino, com uma doce melodia que me embalava. Sei que me disse coisas importantes, mas à medida que o via afastar-se com a força das asas a impulsiona-lo para o Infinito, pensei que nada do que poderia ter ouvido interessava, ele tocava-me apenas com a sua presença, e nada poderia fazer por mim senão embalar-me.
Olhei o horizonte. O Sol continuava a queimar tudo em meu redor, mas eu nada sentia além da areia tépida. Enfiei os dedos na areia e fiquei a vê-la a escorrer-me por entre os dedos. Repeti o gesto. De repente a areia transformou-se em sangue. Levantei-me assustado, estava sentado numa poça de sangue, e os meus pés afundavam-se no líquido quente, viscoso, vermelho… Tentei fugir. Mas os meus pés afundavam-se cada vez mais naquela pasta vermelha, e todo o deserto se transformou em sangue, via no fim do horizonte o amarelo da areia transformar-se em vermelho vivo de sangue… O sangue dos inocentes… Todo o sangue derramado em toda a Humanidade, congregando-se no meu vazio.
Acordei.
Estava morto, com toda a aldeia a olhar para o meu corpo derrotado no chão frio, com a chuva a cair sobre a minha pele e o meu sangue.