dezembro 19, 2003

Auto-análise ou o escrever pelo escrever.

A Morte é um delírio. Não passa de sonhos de fuga, de qualquer coisa diferente apenas. Talvez pelo medo, talvez pelo enfartamento da Vida, que nos parece sempre igual, sempre um beco sem saída.

Em tempos desejei a Morte, pensava que apenas ela me conseguiria livrar do vazio que a minha vida assustadoramente se ia embrenhando. Fechei-me em mim, e criei em mim “cancros psicopatas”, não me conseguia dar com ninguém, nem me dava a ninguém. Qualquer amigo, qualquer rapariga, qualquer pessoa que se cruzasse no meu caminho estático, eu afastava-me e afastava-a, porque não me sentia digno de partilhar os meus podres com os risos dos outros. E lentamente fui odiando os risos dos outros. Por inveja principalmente, mas também e muito por raiva de mim. Por me odiar por não conseguir partilhar dos seus risos, porque eu não tinha dentro de mim risos nenhuns. Sentia-me inferior a toda a gente, era apenas um resto de carne deixado a vogar na imensidão. Todos namoravam, todos tinham amigos, e eu afastava-me dos meus amigos (que pensava não os ter), e qualquer rapariga que se tornasse mais intima minha, deparava com um muro intransponível, e se por acaso eu abria uma brecha qualquer, o meu temperamento possessivo fechava essa brecha, prendendo todas as infelizes num mundo de caos e Dor. Rompiam a brecha, e eu deixava-as ir sem a mínima lágrima. Nunca foram minhas, nem eu as queria, não suportava intromissões na minha solidão, e apenas queria alguém na minha solidão. Nada mais que isso. E descobria-me a mim, algo que hoje em dia dou muito valor, e sonhava com a morte, com a fuga…

Depois fartei-me, e descobri que afinal não era muito diferente dos outros, eles também tinham lágrimas, e eu também tinha risos. E comecei a usar os meus risos, para esconder e fugir das lágrimas que eu sentia dentro de mim. Como as deitar cá para fora? Com a escrita, com pulsões pseudo artísticas (a guitarra eléctrica com o amplificador no máximo e tão boa para deitar a raiva cá para fora, sendo esmagado pelo som pesado que eu mesmo faço… pela minha raiva.), com momentos de solidão auto infligida para nunca perder o contacto com o meu lado negro, com as minhas lágrimas, comigo. E gostaram de mim, e amaram-me, e afinal eu também era fixe, apesar de continuar a fugir muito e de ter muitas quebras de confiança, e muitos picos de ódio por mim mesmo. Mas no dia 5 de Abril de 2002 por incrível que pareça isso mudou tudo. Ou quase… o que se passou nesse dia? Nada de mais. Fui ao Porto ver um concerto de Moonspell, no Hard Club, e apesar de ir até algo tímido, porque achava que aquele ambiente era demasiado negro e pesado para mim (afinal eu sou apenas um amante de música, não pertenço a nenhum grupo estandardizado de cabedal negro e pulseiras de picos) ia com a sensação que não ia inserir-me, que me iriam olhar de lado, que iria ser um estranho, ostrizado e se calhar até ouviria risos abafados pelas minhas calças de ganga azuis. Mas nesse dia reparei em algo. Já não existem os tais grupos que quando era miúdo ouvia as lendas. Essas lendas já são homens e mulheres de responsabilidades, que apenas continuam a ouvir os sons que sempre gostaram, e os grupos estandardizados não passam de miúdos com falta de afirmação pessoal, que entram nesses grupos porque precisam de entrar em algum grupo. Eu não era de nenhum dos grupos. Eu afirmava-me, porque era eu (algo que nunca deixei de ser), porque estava ali porque compreendia as mensagens e não porque a isso era obrigado pelo grupo de amigos. Eu era um dos originais. Aquele que ali estava porque se identificava intrinsecamente com a cultura, e não alguém que apenas lá estava por conveniência social. Os famosos wannabes, os putos que se vestem de rebeldes, mas que não têm metade da rebeldia que eu pacatamente ostentava. Afinal a rebeldia é apenas um estado de espírito, um seguir em frente com aquilo que gostamos e somos. Eu afinal pertencia aquele grupo, o grupo das mentes negras, mesmo que não precisasse de gritar bem alto através do meu exterior. Aquilo era a minha Alma, ou uma parte dela, e não o meu social. Eu através dos anos de solidão e sofrimento tinha conseguido para mim algo que muita gente nunca conseguiu nem nunca conseguira, uma individualidade, uma Alma perfeitamente conhecida e reconhecida por mim, um lugar no Mundo mesmo que esse mundo fosse apenas o meu, afinal só isso é que importa, eu não preciso de nenhum grupo, porque eu sozinho aprendi a sobreviver e a viver sem complexos, conhecendo-me quase completamente mesmo no meio do caos, esse poderoso aliado que nunca prescindi, porque é do caos que se faz a ordem. Eu era forte. E nesse dia percebi-o.
Ganhei uma nova confiança, e desse dia em diante passei a gostar de mim, porque finalmente tinha percebido que eu já tinha conseguido mais que muita gente. Passei a dar-me com toda a gente, porque já sentia que tinha algo a dar, quer em experiência, quer em confiança em mim para novas experiências. Eu já me conhecia e me sentia forte, agora queria alargar os meus conhecimentos e beber todas as sensações possíveis. Nesse intermédio apaixonei-me, e fiquei fraco novamente. Amei, fui amado, ou pelo menos senti-me amado, e deixei-me cair num rodopio de Loucura, a meio da viagem estava demasiado preso nessa sensação e começou o meu medo de a perder e cair novamente. Algo que irremediavelmente veio a acontecer. Mas desta vez não me fechei em mim… Não. Segui em frente com os olhos fechados e entrei noutras loucuras conhecidas e desconhecidas. Vivi ainda mais ao extremo, e dei-me ainda mais com as pessoas, mas já não me entreguei, já tinha cometido esse erro uma vez e não o cometeria segunda, por isso fui um vampiro de novidades e experiências. De droga a viagens pelo desconhecido, do extremo ao singelo, do reaproximar-me de quem me afastei ao dar-me com quem não conhecia, tudo vivi, tudo experimentei, e tudo me serve agora de enriquecimento de vida. Ainda não acabei esta viagem, apenas estou a saborear o descanso do guerreiro. Mas sei que agora a morte mais não é que simbolismos de experiências de vida, de extremos que beijei, e de extremos que saboreei…
Ainda sou o mesmo que sempre fui. Apenas estou mais rico… Mesmo que continue a remexer na minha podridão. Afinal, se fugimos dela nunca a descobriremos. E ela voltara sempre para nos magoar. Eu apenas a conheço…

Posted by almahperditae at dezembro 19, 2003 02:23 AM
Comments

Sinceramente a tua história tá,de facto,mt boa...Julgo k com isto irás ajudar mta gente k n tem forças pa seguir em frente indepenentemente das dificuldades k estejam a passar,k podem ser d solidão...Eu,pelo menos,e embora d maneira diferente,senti a mensagem...Bom mas o k kero dizer,e isto pra n m alongar mt no comentário,é k admiro mm o k escreveste.=)

Posted by: Lacshimi at dezembro 19, 2003 11:02 AM

obrigado pelas palavras :)

basicamente o k kero dizer é: o nosso bem e o nosso mal somos nós que o fazemos. a unica coisa a fazer é nao ter medo de enfrentar os nossos medos e fantasmas quer seja atraves da escrita (k é um excelente escape) ou de qualquer outra coisa. o importante é conhecermo-nos a nós, e nunca esconder os nossos defeitos e os nossos podres, pq eles voltam sempre. e qd conseguimos ser sinceros connosco mesmos, ai nada nos derrota. eu pelo menos acho k é assim.

Posted by: Almah Perditae at dezembro 19, 2003 10:21 PM

como sempre ADORO o k escreves e como escreves, identifico-me sempre bastante jah n eh a primeira vez k te digo isso. mas esta tua auto-análise tocou-me de uma maneira especial... conheces-me minimamente para saber pk :) *** [_DarkAngel_]

Posted by: kronstadt at dezembro 22, 2003 04:28 AM

kronstadt (k nick tão estranha até deve tar mal escrita lol) embora em niveis diferentes de outras pessoas (a Maria João, a Fatima, a Vanda e o Marco confesso k estao noutro patamar) tu tb fizeste em alguns momentos parte do meu ultimo estagio. akele de seguir em frente de olhos fechados, experimentando e conhecendo coisas novas, mesmo k estivesse destruido por dentro. e tu mesma foste a 1º a dizer-me que ao ler o blog nc pensaste k eu fosse assim, pq qd nos cruzamos pelas ruas de leiria, vieira e afins, penso k nc viste a minha faceta k escondo mts vezes. confesso k os ultimos meses da minha vida foram dos melhores apesar de por outro lado terem sido dos piores. e so tenho a agradecer a toda a gente (akeles 4 principalmente) tu incluida por todos me terem salvo dakilo k provavelmente teria sido a minha morte. cheguei a estar em cima dum penhasco a olhar o mar e a pensar k era so dar um passo em frente, mas muitas pessoas, mesmo k mts vezes inconscientemente, salvaram-me, aturaram-me e acabaram por me devolver a esperança. obrigado a todos :) eu sei k estou muitas vezes sem vos falar e sem vos ver k tempos, mas isso nao é por nao vos estar agradecido, é mesmo pq infelizmente as coisas nem sempre são como kero.
Obrigado pela paciencia, eu sei k nao sou façil de aturar lol

Posted by: Almah Perditae at dezembro 25, 2003 04:23 AM

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Posted by: at dezembro 1, 2004 05:04 PM