Fumo um cigarro. Enquanto puder nada mais farei. Olharei o mundo a acordar, com a luz branca da manhã a invadir tudo por entre a névoa, com o Sol a aquecer os corpos prostrados a entrada das repartições publicas e das lojas, com os carros a passarem no silencio do alcatrão, a ver os miúdos passarem para ir para a escola…
Apago o cigarro no cinzeiro e entro novamente na cama. Tentar dormir. O mundo lá fora não me pertence, tenho um ritmo próprio. Não preciso de ir para o frio cortante da manha, mas não consigo dormir e perco-me na visão do ritmo da cidade a acordar, devolvendo-me ainda mais a minha solidão. Viro-me na cama. Não consigo dormir, passei a noite em branco, pensando sem ter nada em que pensar que não o meu vazio. Mas o meu vazio não me deixa dormir, penso em toda a minha vida, e penso que nunca nada me arrancou do vazio, sempre o meu vazio, a minha alma perdida que vaga por entre um turbilhão de emoções desconexas, sem nunca sentir outra emoção que não o vazio…
Sinto saudades de nada. Apenas quero aquilo que nunca tive, que não sei o que é. Apenas sei que depois de o ter se confundirá com todo o resto da minha existência, e passará a ser aquilo que sempre fui – O Vazio.