agosto 29, 2005

Escritas...

Olho o cinzento do dia (tão longe já o Verão, estarei louco?), ouço o ecoar dos passos na rua, e sinto que algo estará a fugir de mim... Vasculho na minha memória, tantos anos, tantas lágrimas, tantos sorrisos, e sinto que ainda não o senti. O que será? Passa alguem por mim, indiferente a mim, diferente de mim, os nossos olhos trocam-se, e algo faisca... Seguimos o caminho, decidimos virar as costas ao destino, o destino se encarregará das nossas cinzas. Continuo a caminhar, é Inverno, sinto que é Inverno, nos meus ossos o frio corrói-me em lâminas, em Mim o frio são punhais rasgando a pele nua, o sangue nas veias respira mas eu sigo o meu caminho... Sentei-me num café, na ultima mesa, lá ao fundo, com a Humanidade entre nós, uma mulher olha um livro, que estranho, olho a capa azul, não consigo destinguir as letras, parece embrenhada num estranho mundo, e eu fico a admirá-la, a ler, a sonhar, talvez já mais morta que viva, talvez ja um cadáver como eu, apenas respirando por mecãnica carnal, mas morta, sem vida por dentro, apenas buscando résteas de sonho em papel manchado de letras... Como eu, como eu sou, vou falar-lhe... A música dos meus passos embala-me num sonho irreal do qual não acordo. Flutuo nas nuvens rosadas sangrentas de Ocaso.
Acordo...

Posted by almahperditae at 08:20 PM | Comments (9)

agosto 15, 2005

Imagens...

Como muitas imagens já não estavam disponiveis, tive que apagar 10 entradas. Algumas delas já nem me lembro como eram as imagens, e como não tinham comentários... Depois de estar quase um ano com o blog totalmente ao abandono, espero que com o tempo consiga colocar o blog novamente operacional, espero é que continuem a comentar, ou comecem :P

Posted by almahperditae at 09:09 PM | Comments (3)

Não sei por onde vagueio.
Não sei onde a Morte se cruzará comigo...
Talvez num beco desconhecido,
Talvez num luar matizado de Solidão
Percorrendo os ventos sussurrantes,
Ouvindo o silêncio trespassante.
Apenas o vazio, sincero e nú,
Dançando sobre o Abismo,
Sorrindo, de veias frias...

Posted by almahperditae at 08:52 PM | Comments (3)

agosto 13, 2005

Cadáver

A fronteira entre o Ser e o Vazio esvaisse no fumo hesitante.
Num suspiro inerte que gemo num chão sangrento de pele seca,
Mergulho num abismo familiar
Que me rasga os sentidos moribundos.
A carne apodrece no pulsar dum segundo vazio,
E toda a força que não tive perdia...

(na chama de gelo morri!)

O meu silêncio apenas é quebrado pelo grito que não gritei,
E nesse espaço de Tempo aguardo o que não virá,
Réstias de sonhos que flutuam no negro,
Cadáveres prostrados em cerimónias solenes,
Fronteiras guardadas por exércitos derrotados...
Quis a Humanidade toda,
Fiquei com uma lágrima derrotada no peito,
Ergui-me ao vento que me acariciava o cabelo
E cai da montanha que nunca tinha escalado.
Espanquei a Terra com saliva de sangue
Mas os meus lábios beberam areias de desertos rochosos.
Sentei-me num trono sem reino,
Orei a um Deus que não existia,
Fui acólito de causas que não acreditava,
E todo eu era fecundidade de nados-mortos.

Rasguei peles e lágrimas,
Gritos e vazios,
Universos e veias.
Bebi todo o sêmen,
Vomitei néctares,
Cuspi na face de todas as estátuas,
Violei prostitutas,
Assaltei mendigos,
Gritei palavras que não conhecia
E repousei sobre jardins de granito.
Fiquei com uma mão fechada sobre um Nada.
Patético triunfo sobre o Vazio que era eu...

Acordei dum sono que nunca dormi,
Vi os meus restos mortais,
Derrotados sobre cinzas incandescentes de gelo,
Sorri perante a minha própria Morte
E estanquei o sangue que me cobria,
Olhei as serpentes dormindo sobre mim,
Acariciei-as...
Beijei-as...
Fiz delas o que nunca fui,
E olhei um nascer de um Sol numa noite que nunca acabou.
Olhei ao espelho de sal,
Um feto apodrecendo,
Túmulo de um útero estéril,
Desejo inerte de conquistas vagas.

Na minha lágrima entrei e sorri.
Fiz dela um diamante por lapidar,
Abandonei-o na terra salgada,
Deitei-me sobre as asas que me acariciavam
Abracei o Vazio,
Bebi do rio sangue em que me banhava,
Abri a mão vitorioso,
Deixei escapar o vento que era meu,
Gritei mas não venci o silêncio,
Dentro de mim o abismo abriu-se
Era luz apodrecida de negro,
Feridas de batalhas que não travei.

Chorei dentro do buraco negro,
Em silêncio, sem ninguém ver,
Abandonei o palco sem cantar,
E deitei-me na cama de pétalas podres.
Olhei o meu cadáver,
O cadáver que sempre foi meu,
A única carne e pele e sangue certeza...
Chorei no silêncio da noite.
Múrmurios secos de sal,
Espadas trespassando a minha carne,
Gangrenas na alma derrotada de Mim...
Sou o meu próprio cadáver...


Posted by almahperditae at 05:01 PM | Comments (6)

agosto 09, 2005

Angel Tears

Posted by almahperditae at 06:32 PM | Comments (15)

agosto 08, 2005

Desejos encarcerados dentro do vazio,
Olhares nebulosos que se perdem num destino algures lá ao longe.
Raios mente podre, acorda dessa letargia que te cega os sentidos,
Entra no turbilhão de vida que te esmaga de encontro a tua própria indefinição,
Rasga esse manto, pobre lágrima desterrada de Ti!

Acendo um cigarro…
Olha a neblina de mim a envolver-me,
Olho o vazio de mim…

Grita…
Rasga…
Mergulha…
Entra…
Dilacera…
Bebe o Sangue que te sabe tão bem
(tão bem que te sabe este sangue apodrecido)
E mergulha enfim nesse Oceano que ruge nos teus sentidos hipnotizados.

Posted by almahperditae at 07:36 PM | Comments (19)

Balada Da Última Hora Na Última Noite

Talvez fosse uma fraqueza. Talvez fosse uma lágrima que não tinha derramado, uma lágrima que tinha engolido antes do seu nascimento. Não sei o que foi…
Estava bem escondido, no meu útero familiar, bebendo néctares que se partilhavam incógnitos, fumando cigarros numa ténue partilha que pensava ser real, fui tudo o que afinal não sou. Mas naquele momento queria ser, rasguei sorrisos, bebi do copo sujo de espuma branca, chamas incandescentes que brilhavam na luz, o conforto do vazio.
Mas tudo acaba… sai, quis mais uma chama, mais uma partilha talvez, não queria a morte certamente. Caminhei pelas ruas vazias, olhando a lua serena na sua majestade, ouvindo os meus passos certos e precisos na noite vazia, e senti-o… o Vazio, a Dor, o Negro… Quis algo mais, um ultimo cigarro, uma ultima palavra, um ultimo sorriso, mas a noite estava fechada, o silêncio tinha tomado conta do Infinito, e eu estava abandonado, e eu abri os olhos, eu estava abandonado.
Percebi com a mais triste das lágrimas percorrendo a minha face, que eu estava abandonado, que eu não podia contar com nada, com ninguém, que todos os sorrisos, todas as chamas, todas as palavras, são pontes sobre um rio sem fim, que sempre no fim da ultima tábua é sempre o Abismo que nos espera, e nada mais que isso posso ansiar, e sentei-me… Sentei-me no ultimo banco da ultima estrada, e fumei o ultimo cigarro da ultima hora, pensei em gritar, mas a noite já tinha demasiados silêncios, e o meu grito era apenas mais um silêncio, confundia-se com a noite, não era o meu grito, o único grito que acreditava que podia rasgar a noite, por isso levantei-me e caminhei, sempre, sem parar, rasgando o silêncio, sem gritos, sem lágrimas, sem poesia. Era apenas eu, na rua, na noite, no frio. Eu estava abandonado…

Posted by almahperditae at 06:23 PM | Comments (17)

agosto 04, 2005

O Corpo...

O corpo é finito, é massa mole, é mortal, é cárcere das emoções, é veiculo para o prazer efémero das sensações, é o inicio e é o fim do mais sublime da experiência humana, da grandeza da alma, da poesia do pensamento, da imortalidade do véu com que nos cobrimos. É Morte! É carne que apodrece lentamente, pele que grita silêncio, efémera memória palpável do irreal…
Toda a Humanidade anseia a Imortalidade, a Grandeza, o Infinito, a Poesia, a Arte, a Religião; ser Deus da mortandade, do éter desconhecido. Mas toda a Humanidade fica presa no corpo, pois só aí: no pó, no esquecimento, no sangue, na dor; a Humanidade é real. Somos todos vagas memórias duma fugaz eternidade que se constrói e desconstrói ante a nossa patética realidade. Essa é a nossa Felicidade, efémera; essa é a nossa Tragédia, eterna…

Posted by almahperditae at 10:03 AM | Comments (11)