setembro 28, 2005

Passado...

Pois é... A dois dias atrás fiquei chocado comigo mesmo. Quando entrei no MSN, uma amiga minha perguntou-me o que achava do texto que ela tinha no nome, eu disse que gostava das frases, perguntei de quem era, era muito bom disse eu... Para minha surpresa o autor era eu mesmo, tirou as frases de um poema que eu tinha posto aqui no blog, não reconheci.
Fui para casa e comecei a ler tudo o que tinha escrito, alguns lembrava-me deles, a esmagadora maioria não, eram folhas perdidas no meio de cadernos cheios, folhas perdidas no meio de caixas cheias de papeis, ontem acabei de passar para o PC este conto que escrevi a umas semanas e depois de ter começado a passar a limpo nunca mais me lembrei, ontem acabei, hoje postei no blog, porque até tinha dito que o ia fazer porque gostei de o ter escrito. Este conto tem uma história engraçada, foi num dia que li um texto de Peixoto, publicado na Underworld (revista gratuita de metal) com uma construção que me agradou, nessa noite, enquanto trabalhava escrevi um texto com a mesma construção. Plágio? Inspiração? Who cares? Se ele me quiser processar que processe, de qualquer dos modos é uma singela homenagem a um escritor que descubri a pouco tempo e me deixou imediatamente fã. Recomendo aliás a todos que leiam o romance Nenhum Olhar, dos que eu li (que não foi ainda tudo, é dificil encontrar livros dele aqui neste buraco negro cultural) é o melhor.
E hei-de continuar a ler tudo o que escrevi, eu tenho ficado surpreendido lol

Posted by almahperditae at 04:25 PM | Comments (11)

Conto de Uma Noite Só

Ele entrou no café. Desenhou uma dança por entre as mesas e sentou-se no balcão. Acendeu um cigarro com o vagar do tempo cadente e esperou pelo café que pediu. Todos os sons do café eram ele: o jogo de futebol na televisão, os homens ruidosos que assistiam ao jogo que talvez fosse importante, a mulher sentada na mesa do canto, falando ao telemóvel com voz alta, não se importando com os outros, tinha confiança em si, a rapariga por detrás do balcão que arrumava copos sujos na máquina de lavar, sem grande cuidado, tinha mais que fazer, os copos batiam uns nos outros e o seu som de vidro ecoava tímido e rápido. Ele ouvia tudo, ele era tudo, o som da vida, a música do mundo… Ouvia… Sentia… Embriagava-se no turbilhão da vida, enchia-se com todos os sons, sentia todos os ruídos, fazia parte do todo, e ai se anulava. Confundia o seu silêncio interior com o ruído do mundo que o rodeava, tornava-se Uno com tudo, preenchia todo o seu Vazio. Ouvia apenas. Diluía-se no Todo.
Ela sentia o peso dos sacos no corpo cansado. Pairava pelas ruas, olhando as montras, olhando o vazio que tinha dentro dela, sentindo tudo através do vazio que crescia dentro dela, o vazio que cada vez tomava mais conta de si, o Vazio… O Nada… Arrastava-se na multidão, sentindo tudo através sempre do mesmo vazio, sem conseguir gritar, expulsar, exorcizar o vazio… talvez a Felicidade não existisse, talvez tudo fosse apenas um sonho, talvez a vida não fosse mais que uma longa espera pela morte. Talvez… E a cidade despia-se ante seus olhos cansados, passava pelo seu corpo cansado, e ela olhava através de si, do seu vazio, e queria gritar alto, encher o mundo com os seus gritos, com a sua pessoa, rasgar o seu silêncio com os gritos que a sua mente gritava silenciosamente. Pairava pelo mundo. Gritando em silêncio. Desvanecendo-se no Nada.
Ele saiu do café. Caminhou por entre as pessoas apressadas, esperando algo que nem ele sabia ao certo o que era, talvez não esperasse nada… O Sol começava a banhar tudo de sangue, um pouco mais e as ruas eram conquistadas pela noite, e ele caminhava… Caminhava por cima dos últimos raios de Sol, pisando cada pedra com o vagar de ser a ultima, como se o seu caminho fosse apenas o caminho que tinha que percorrer para não estar parado. Como se aquele não fosse o seu caminho, como se aquelas ruas, aquelas pessoas, aqueles passos fosse um grito desesperado a encher o silêncio que o consumia. Como se caminhasse estando parado, como se o seu caminho solitário não fosse um caminho, mas apenas passos ecoando sem sentido na cidade, ecoando nele, como se não pudesse parar, como se não suportasse o silêncio. Por isso continuou caminhando na luz cada vez mais ténue das ruas que se despiam, se cobriam de silêncio, ouvindo os seus passos, só, sentindo o peso do seu corpo no chão, caminhando, só, sentindo o ecoar dos seus passos vazios na calçada, caminhando, só…
Ela sentou-se numa esplanada. Olhava as sombras dos prédios, as janelas brilhantes, as paredes rubras, as ultimas résteas de luz. Mal programados, os candeeiros começavam a acender-se, pálidas tentativas, inútil conquista ao Sol, a sua luz ainda era um nada, um vazio. Talvez fosse como ela. Sentia-se com tanto dentro de si, tinha tanto a dizer, cada dia que passava, cada hora, cada minuto, mais palavras que tinha dentro de si, que desenhava na sua alma, que queria partilhar, queria expulsar de si, mas ninguém a ouvia... O silêncio a que era votada fazia-a sentir-se vazia. Tal como aqueles candeeiros, que daqui a poucas horas serão a réstea de luz das ruas negras, mas agora, ainda com o Sol a dominar o horizonte de prédios, não passavam de um Nada, de um vazio. À sua volta toda a gente tinha algo a dizer, mas ninguém a queria ouvir… Ela era como um candeeiro aceso durante o dia. Iria escrever isso no caderno que ouvia os seus gritos mudos. Ninguém a ouvia, escreveria isso no seu caderno, que a ouvia sempre.
Ele entrou num jardim. Sentiu os seus passos esmagarem pequenos torrões de areia. Ao longe, ao fundo do jardim, os risos das crianças ecoavam através do rumor do vento nas copas das árvores, era a música do silêncio, ele estacou, olhava a alameda, o verde da erva, o vermelho do Sol, a cor terra dos troncos, a luz das folhas, e ouvia… Ouvia o vento, os risos, os seus pés, a cidade ao longe, tão longe, tão distante, no fim da areia sob os seus pés. Acendeu um cigarro e ficou a fumar, sozinho, no meio do jardim, em pé, ouvindo o vento, as folhas, as crianças, a cidade…
Ela cansou-se. Disse tudo o que queria dizer, o caderno não a ouvia, apenas ela tinha a latejar na sua cabeça as palavras, ninguém a ouvia, apenas ela possuía as suas palavras, levantou-se e continuou a andar através da cidade, contemplando tudo com o seu vazio, com o silêncio de ninguém a ouvir, apenas ela tinha em si as suas palavras… Caminhou com o peso dos sacos, sempre constantes, cada vez mais pesados, caminhou com a sua alma cada vez mais cheia, e sempre no constante silêncio de ninguém a ouvir. Olhava as pessoas, as crianças, os jovens, os idosos, todos com a mesma pressa, mas cada um com a sua direcção: a pressa de correr, a pressa de chegar, a pressa de fugir… As cidades são homogéneas, vontades diferentes, vidas diferentes, sonhos diferentes, desejos diferentes, mas tudo é confundido na multidão, porque todos fazem os mesmos gestos repetidos, apenas têm objectivos diferentes. E o Sol, indiferente a tudo isto, já quase deu lugar á noite.
Ele sentou-se num banco de jardim. Queria ficar ali a ver as ultimas réstias de Sol, queria ficar ali a ouvir a cidade, lá ao longe, na distancia, cada vez mais adormecida, cada vez mais silenciosa, com ele cada vez mais uma penumbra, cada vez mais nada. Ouvir o ultimo choro da ultima criança, antes de passar com a mãe à sua frente, ouvir a criança engolir a ultima lágrima, e a voz doce da mãe a dizer com voz cansada que amanhã havia mais, era tempo de regressar a casa. E depois… Quando o jardim estiver mergulhado no silêncio, quando os carros que passam no fim da alameda de terra já não buzinarem, quando a água do lago dos cines sem cisnes, for o único murmúrio nas sombras do jardim, ele ficar ali, no silêncio. Ele ficar ali, no escuro. Ele ficar ali, sozinho. À espera de nada, à espera daquilo que nem ele sabia o que era. Ele, o jardim, o silêncio, a escuridão… A longa espera pela morte, o longo silêncio que o embala e esmaga.
Ela entrou no jardim. Queria gritar à noite que estava viva, queria rasgar o longo silêncio que a cobria, mas ninguém a ouvia, ninguém queria saber, e ela ia refugiar-se no jardim, chorar, gritar, encher-se com o vazio que a enchia, morrer na noite e no escuro, até ressuscitar. Caminhou pela alameda, já estava vazio o jardim, só ela sobrava no meio daquele vazio negro. Caminhava no silêncio, queria explodir à noite, chorar, gritar, cuspir ao ar que estava viva, que ali, entre a relva e as árvores havia também vida no escuro, no ventre escuro da cidade. Derrota final, perder as força por fim, pousar os sacos no chão, sentar-se num banco, sentar-se num banco e chorar em silêncio. Era melhor esquecer os gritos mudos que a enchiam, desistir apenas, sentar-se, morrer, ressuscitar…
Ele ouvia. Ouvia o silêncio, ouvia o vazio, ouvia a solidão. Quando acordou da letargia, ouviu algo concreto. Passos? Ouviu os grãos de areia a serem esmagados, suavemente, gentilmente. Ouviu a respiração da mulher que se aproximava, perdida, cansada, talvez dos sacos das compras. Sem o ver, sem ver nada, cega ante todo o Universo, ante ela mesma. Caminhou na sua direcção, sem o ver, sem ver nada, estava escuro. Quando distinguiu a sua sombra na noite, hesitou primeiro, avançou depois, já nada tinha a perder…
Eles morreram um no outro.

Posted by almahperditae at 04:15 PM | Comments (14)

setembro 27, 2005

Persisto na insistência da solidão.
Em clamar velhos fantasmas ressequidos,
Esquecidos e perdidos
Na bruma das memorias desconexas.

Insisto em olhar as sombras,
Em vangloriar a sua dança tenebrosa
Acercando-se de mim em carícias frias,
Murmurando-me… Chamando-me…

Nas minhas entranhas apodrecidas
Jaz uma luz que se apagou,
Um fogo azul consumido pelo Tempo,
Cinzas fumegantes ainda quentes.

Posted by almahperditae at 08:38 PM | Comments (5)