O cenário era o mesmo. Uma floresta negra e uivante, murmurando na vasta vacuidade de mim, memórias irreais que eu nunca tive.
Mas algo era diferente... O odor que me inebriava, as memórias do que não fui, a dor do que não sou... Algo era diferente... Percorria o mesmo Vazio, o mesmo limbo, ansiando encontrar no fim do negro algo de pálpavel, algo de concreto... Perdi-me nas sombras e aí morri...

Naquele dia sentei-me sozinho. Acendi um cigarro e deixei-me envolver pelo fumo. Não agarrei o jornal. Fiquei assim não sei quanto tempo. Nada havia além do meu silêncio. Não queria pensar. Não pensava. Tudo passava por mim como se nada existisse além do fumo do cigarro. Havia ruídos em meu redor. Não os ouvia. Havia silêncio no meio da multidão. Eu era silêncio.
O tempo passava, sempre constante, e nada sentia nem nada ouvia. Eu era o silêncio que gritava no mais fundo do Vazio. Olhava em frente, vultos iam passando no limiar da minha percepção, sombras difusas de sonhos que outrora vivi, e momentos perdidos, feitos fumo, num cigarro que se apagou. Era a urgência do tempo a gritar.
Levantei-me como se estivesse parado, e caminhei sem sentir o chão concreto debaixo de meus pés. Nas ruas desertas de mim, havia fantasmas que tinham passado pela vida que tinha sido. Nada me diziam da vida que tinha perdido. Quando cheguei ao templo da minha Morte, agarrei a cruz da minha cobardia, e o seu toque frio estremeceu-me os sentidos.
Gritei como se fosse silêncio… Morri como se fosse vivo.
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Foi sob um Sol azul que tremi com o frio do meu silêncio. Nas minhas entranhas apodrecidas, ribombaram trovões com um som surdo e ensurdecedor. Estaquei ali, sob a égide de planícies de verde, com os pés feitos húmus, com vermes corroendo-me os ossos… Olhando o Sol luminoso, e a beleza diluindo o Infinito. Um murmúrio apenas saiu dos lábios, em vagas de ar quente no frio de mim. Sim, seria uma boa tarde algures…