Ventre de luz,
Cuspindo Fogo e Negro,
Memórias corruidas,
Feridas salgadas,
imundas e pútridas,
Em corações despedaçados,
Solitários,
De lágrimas engolidas,
Chorando sorrisos escondidos,
Esperanças que se perdem,
Lentamente,
No constante ribombar
De segundos que se perdem...
Houve no Negro um grito:
Fechada no silêncio,
Rasgou ecos na pedra.
Dentro da sua lágrima
Evitou um último sorriso,
Uma ultima mentira,
Prostou-se nua no chão,
Qual deusa milenar,
Num mar de sangue
Manchando a terra vazia...
O seu ultimo sorriso
Foi rasgado a chumbo.
E todo o ruído se fez Nada
No silêncio do seu grito...
Numa noite como outra qualquer, no Verão de 2003, fui até ao Snoobar. Ao chegar a casa escrevi um pequeno texto, como muitos que escrevia naquela altura e coloquei no blog, uma coisa nova que nem sabia o que era, que era lido por ninguém, e que me ia entretendo. Á medida que o tempo passou, descobri o que era essa coisa da blogosfera e descobri que afinal o blog era lido, e essa entrada particular tornou-se não sei como ainda, a página mais lida na net sobre o Snoobar (ou pelo menos é a primeira página que aparece no Google) por gente que eu nem conheço, talvez as mesmas pessoas que vejo lá e não conheço de lado nenhum. A quantidade de comentários que a entrada já teve levou a que esta se torna-se como que um fórum sobre o Snoobar, os adeptos, os que passaram lá umas férias, os de antigamente. Naquela altura específica o blog era usado de um modo bastante mais pessoal, sentimental até, expiação de fragilidades que tinha na altura. Passados estes anos todos (e já lá vão 3 (três!!) anos), derivado também do facto de a certo momento os comentários terem sido cortados, houve uma diminuição drástica nos comentários, mas a entrada continua lá, e de tempos a tempos até eu a leio com um misto de nostalgia e mágoa. Por cima daquelas centenas de comentários sobre o Snoobar, um texto dorido, de raiva até, meu. Uma visão pessoal e emocional de uma noite passada no Snoobar.
Ora bem… de lá para cá muita coisa mudou, inclusive o próprio Snoobar. E é sobre isso que quero falar.
Naquela altura especifica o Snoobar mais não era que uma pálida imagem de uma discoteca mítica cá da zona. A certa altura, talvez derivado de uma certa saturação, a discoteca fechou, foi remodelada, e foi reaberta com o intuito de voltar a ser o único ponto de passagem da noite de Sábado, naquelas noites em que nem se conseguia lá estar dentro, em que a Hot Rio metia para cima de 3 mil pessoas, em que estacionar em São Pedro era um exercício próximo da impossibilidade. Mas… o resultado foi o inverso. A mudança era tão grande, tão chocante, da decoração á musica, que o Snoobar pura e simplesmente ficou entregue às moscas. Ninguém queria pactuar com aquele autentico crime à vida nocturna da zona. No Verão compôs-se um pouco, foi quando escrevi a entrada numa noite que lá fui… Passados 3 anos, passadas mais algumas remodelações (nem sei quantas nem quais ao certo) voltei nos últimos tempos a sentir algo do antigamente no Snoobar, e tem sido novamente passagem obrigatória das noites de Sábado em que quero ir a uma discoteca. Primeiro devo confessar, redescobri o prazer de sair de lá de manhã, coberto pela luz matinal, coberto algumas vezes pela névoa etílica e recheado de vontade de ir até ao Old Beach comer um bitoque para retemperar forças. No novo Snoobar voltei a sentir o prazer de estar, de observar, de me sentar no meu cantinho a fumar um cigarro, de esperar ao balcão por mais uma bebida, de encontrar pessoas, de falar, de trocar olhares, e até, coisa inédita (ou quase) em mim, ás vezes até de dançar! O som não é o que mais gosto (longe disso), sou um adepto à já 27 anos de sons depressivos e intensos, primeiramente com algum pop que ouvia influenciado pelos gostos da minha família, depois á medida que cresci fui descobrindo coisas bastante antigas, que tinham influenciado as coisas que os meus pais ouviam e que aprendi a gostar (do blues á folk), mais tarde descobri o punk genuíno, passando para o grunge e acabando no metal (principalmente doom). Mas nunca parei de procurar som novo, e um dos sons que aprendi a tolerar em certas ocasiões foi o trance, e a sua versão mais moderada do deep house. E é isso que ouço e gosto de ouvir no Snoobar. A decoração não é nada do outro mundo, não interessa. A música não é a musica que geralmente ouço em casa, não interessa. As bebidas são caras, não interessa. Redescobri o Snoobar. Quando me quero sentir como um miúdo vou lá, os miúdos que lá vão, postos em sentido pelas médias de idade mais decentes comportam-se, divertem-se, bebem, dançam, não me chateiam, nem me fazem olhar como se fossem um bando de selvagens ansiosos por afirmação. Há respeito, civismo, e sorrisos sinceros nas faces. Há excessos, há risos, há grupos, engates, cigarros que se pedem, lume que se partilha. Há acima de tudo o prazer de ir ao Snoobar, contrastando com a necessidade de ir engatar umas “damas” que sentia a certa altura no ar. Os cromos em busca de “damas” foram para terrenos mais propícios, as pitas vazias e quentes foram criar terrenos mais propícios noutras paragens. Ficou o Snoobar. A discoteca onde se vai, não para ir à discoteca, mas para ir ao Snoobar. Talvez ainda não esteja lá, mas acredito que não tarda muito tempo começarei a ouvir novamente que é a melhor discoteca do país (ou da Europa como cheguei a ouvir).
Os tempos são outros. Por muito que me custe o grunge já não é sinonimo de modernidade, de revolta, já não simboliza a confusão da juventude. Já não serve para terminar uma noite de descoberta e partilha. Já é nostalgia. E os nostálgicos encontraram outros locais, mais recatados para levar as famílias, mais propícios a saborear bebidas para carteiras de quem já tem a vida razoavelmente organizada, com horários consentâneos com vidas que já não aguentam as noitadas dos “bons velhos tempos”, porque até têm os filhos em casa… O mundo avança, cada geração agarra-se a uma ideia de diversão e descoberta sem se lembrar que essa descoberta é primeiramente intrínseca e pessoal, não há nada por descobrir, nem verdades ocultas que por artes magicas nascem do nada, muito menos profetas malditos, heróis que subitamente dizem ao mundo aquilo que nós queremos dizer. O que há são mentes inocentes, sedentas de saber e conhecimento, ávidas da descoberta, que há medida que os dias se acumulam, ou se gastam em direcção ao fim, começam a apreender a realidade, e a descoberta não é uma revelação, antes um encontro imediato no tempo que nos cruza. Com a sucessão dos dias, com o desgaste dos minutos algo se perde… A inocência, o prazer da descoberta, o êxtase da revelação. O raio de luz que rasga as nuvens é mais forte que o Sol que brilha no céu sem nuvens. E nesse ponto olha-se para trás, porque já há um Passado, e coberto pelo manto dourado da memória, tudo o que foi brilha mais intensamente que aquilo que é.
Mas algo se ganha… Ganha-se a possibilidade de já saber, ganha-se os dias somados, e principalmente, ganha-se o voltar atrás. O poder de voltar atrás. A vantagem de já não ter 16 anos é poder voltar a ter 16 anos… Quando se quiser, como se quiser… Com mais 10 anos de experiência em cima (ou 11 no meu caso…), e mesmo assim voltar a ter 16 anos, não descobrir profetas, não ficar fascinado com heróis, mas ver e sentir algo no ar como quando descobrimos os nossos profetas e os nossos heróis. Beber um copo, beber alguns copos, beber bastantes copos… olhar e sorrir, ter aquele sabor da descoberta, a noção que por vezes descobrimos aquilo que já pensávamos conhecer, ser livre e leve e inocente, por uma noite, por uma noite que vale uma vida passada, e ir dormir, e acordar 11 anos depois… Descobri a vantagem de já não ser jovem. É poder voltar a ser jovem, é sentir-me jovem e dar agora, 11 anos depois, o valor de ter 16 anos. Sentir a doçura de ter 16 anos, doçura que como toda a gente sabe, nos é desconhecida aos 16 anos. Pois é… A vida é um constante perder de oportunidades, um constante perder de tempo, uma constante confusão, e é preciso perder algo para se lhe dar valor, chegar aos 27 para dar valor aos 16, chegar aos 35 para dar valor aos 27, chegar aos 50 para dar valor aos 36… Morrer para sentir que vivemos, olhar para trás, sorrir, voltar atrás, e seguir em frente… E todos os anos perdidos, são momentos ganhos, uma aventura sem fim á vista, apesar dele estar cada vez mais próximo.
A maior mentira que nos contam é o mito do Presente, o tão proclamado Carpe Diem, como se apenas o agora fosse importante, porque o que está para trás para trás ficou. Permitam-me discordar. O agora é o agora, um segundo, que passa e rapidamente deixa de ser presente. Porque o passado é uma onda que está constantemente a engolir o presente. O agora, o presente, o momento, é a construção do Futuro, é a criação num jorro, através de um passe de mágica, num drible entre Nós, o Destino e o Mundo, de memórias e de um Passado muitas vezes recordado. E recordar é viver novamente, e é sempre possível voltar atrás, não no nosso caminho, mas reviver, a idade que desejarmos, e reviver é viver novamente, com uma vantagem: já nada é estranho, e tudo é saboreado. Como quisermos, onde quisermos, quando quisermos…

(as recordações que esta imagem me trás...)
É verdade, sem engano, certo e muito verdadeiro:
O que está embaixo é como o que está em cima
e o que está em cima é como o que está embaixo;
por tais coisas se fazem os milagres de uma coisa só.
Assim como todas as coisas são e procedem do Uno,
pela mediação do Uno,
assim todas as coisas nasceram desta coisa única, por adaptação.
O Sol é seu pai, a Lua sua mãe.
O Vento trouxe-a em seu ventre.
A Terra o alimenta e é o seu receptáculo.
O Pai de tudo, o Telesma universal, está aqui.
A sua força permanece inteira quando se converte em terra.
Separarás a terra do fogo, o sutil do espesso, suavemente, com grande habilidade.
Sobe da Terra ao Céu e desce novamente à Terra
e recebe a força das coisas superiores e das coisas inferiores.
Por este meio obterás a glória do mundo e toda obscuridade se afastará de ti.
É a força forte de toda força,
pois vencerá toda coisa sutil e penetrará toda coisa sólida.
Assim o mundo foi criado;
disso sairão adaptações admiráveis cujo meio é dado aqui.
Por isso me chamam Hermes Trimegisto,
porque possuo as três partes da sabedoria do mundo inteiro.
O que eu disse sobre a operação do Sol está completo.
(Hermes Trimegisto)
No tempo da minha infância,
Os dias eram semanas,
As semanas meses,
Os meses anos,
Um ano era uma vida…
No tempo da minha infância,
Cada dia uma epopeia:
Os socos trocados
Com outros miúdos;
As pedras voando,
Sem destino e certeiras;
O ultimo grito do dia,
Na debandada a chinelos…
Éramos reis num trono de lama,
Em batalhas ruidosas e alegres,
E orávamos em tréguas, partilhadas,
Numa bola no descampado,
Entre balizas de pedra e ar,
Limitadas pela imaginação.
No tempo da minha infância,
Lembro-me que a idade era algo mágico:
Um rapaz com poucos meses mais que eu,
Já tinha nas cicatrizes por desaparecer
E no ar superior da cara sem um sorriso,
O peso dos anos.
E eu olhava-o com uma certa admiração,
Invejando o cabelo desgrenhado,
Que já tinha visto muito mais vento
Que o meu inocente cabelo desgrenhado.
No tempo da minha infância,
Invejava aquele rapaz vivido.
Nas manchas de lama da camisola,
Havia um grito de liberdade
Sufocado no silêncio de lugares estranhos.
Diziam em surdina, com medo que ele ouvisse,
Que aquela lama que secava na sua camisola,
Tinha sido conquistada no pátio da casa velha,
Aquela casa enorme e assustadora,
Com muros respeitosos do peso dos anos…
(Andavam lá fantasmas nas noites de lua cheia!)
Diziam em surdina, com admiração e excitação,
Que ele subia pelo muro como um macaco,
Num sitio secreto, só ele sabia onde era.
Mas já o tinham visto entrar no beco,
Aquele que ficava ao lado da casa,
Abandonado ás silvas entre o muro e o prédio do lado.
No tempo da minha infância,
Aquela casa era mistério encarnado pedra,
O vulto desenhado a medo
Nas noites sem escola no dia seguinte.
Uma massa imensa de negro,
Espreitando além do muro,
Fronteira de medo sem desafio.
Silêncio de um nada inatingível,
Desenhando fronteiras e limites,
Alem do mundo descoberto a sangue.
No tempo da minha infância,
Num dia difuso de silêncio,
Murmurou-se palavras pesadas,
Palavras que metiam medo,
Palavras que não conhecia-mos.
As mães sussurraram-nos medo
Falaram no miúdo mais velho,
Na casa assombrada, abraçaram-nos…
Havia no seu tom uma novidade,
Um respeito novo desconhecido,
E durante vários dias,
Talvez vários anos,
Talvez um Verão,
Uma sombra desconhecida,
Um peso invisível,
Acompanhou a leveza dos dias de Verão…
No tempo da minha infância,
As memórias eram conquistas,
Partilhadas e aumentadas,
No desafio de crescer.
No tempo da minha infância,
Não me sentava a olhar,
Não sabia que havia Passado,
Tudo era sangue e vento,
Tudo era o que foi,
Tudo seria o que era,
Futuro,,,
Um desejo do Presente.
Hoje…
Sento-me a olhar do café,
A demolição da casa velha.
Recordo o tempo da minha infância,
E tudo são sombras,
E tudo são vultos…
Mas recordo o Jorge,
Com a clareza de agora saber…
Recordo o Jorge…
O puto que morreu,
Vitima de uma queda,
Na casa que agora cai…
Além do tempo havia uma promessa que ela calou.
No desenho das suas mãos, que agarravam o ar que lhe fugia, havia uma promessa nervosa que ela calou.
Quando o toque quente e húmido (estavam suadas as mãos dele) a fez estremecer, o seu olhar perdeu-se no Infinito, fechado na sala hesitante à luz das velas, e engoliu a promessa que calou.
Quis dizer algo, rasgar o silencio perdido no ar incandescente da escuridão aconchegante, mas a promessa da sua voz morreu no silencio que nunca rasgou.
Quando ele a deitou, ela agarrou-o a si, e no silencio da sua carne calou a promessa que nunca fez.