outubro 26, 2006

Relax

Existe algo de fascinante na solidão. O silêncio seduz mais que a mais bela melodia, a mais envolvente harmonia, o mais demolidor ritmo. Qualquer paisagem ganha outra cor ao envolver-se em negro… Há quem não entenda isto, quem tenha uma necessidade desesperada por companhia, por confusão e barulho, quem precise de haver alguém mais para dar sentido à sua existência. Desconfio sempre de quem não consegue estar sozinho, mas também admito que a minha necessidade dos meus momentos a sós pode por vezes parecer doentia. A chave é o equilíbrio, em tudo na vida, este é um dos pontos em que ainda procuro o meu. Isto para falar do meu novo prazer, já antigo aliás, mas renovado.
Entrar num bar vazio, sentar-me ao balcão e com um cinzeiro, o tabaco á minha frente e o copo do meu whisky favorito, ficar assim, perdido no tempo e na penumbra do escuro e do fumo. Ouvir o som das colunas, procurar identificar o som, ou simplesmente nem ouvir a musica, deixar que se dilua entre as vibrações da chuva na rua. Acender um cigarro, com prazer, sem culpas, apenas o prazer de fumar em silêncio, o fumo é preciso num bar e numa noite assim, e o tabaco é só um prazer. Saborear o liquido, pequenos goles, perdidos no tempo, uma companhia silenciosa e quente, sentir primeiro o seu odor hipnótico, depois fechar os olhos e sentir aquele primeiro sabor ácido na boca, antes de sentir o liquido quente, queimar a garganta suavemente, desperta os sentidos, envolve os sentidos…
Estes momentos para mim são especiais confesso, e infelizmente a minha ideia de momentos perfeitos é demasiado especifica, apesar de muitas vezes me desligar do exterior, o exterior tem que ser do meu agrado, tem que me embalar, e infelizmente um bar vazio e com a decoração perfeita só para mim é algo incomportável seja para quem for, a excepção é eu ter o meu cantinho, o meu som, o meu tabaco e o meu whisky… e tenho, mas não é a mesma coisa. Existe um bar perto de minha casa que está amaldiçoado, já abriu e fechou e reabriu e fechou inúmeras vezes, já teve mais gerências e donos com ideias que provavelmente qualquer outro espaço da cidade, mas por uma razão qualquer, escondida de nós comuns mortais, nunca ninguém conseguiu fazer aquilo rentável. Será por ser tal e qual o que eu quero de um bar? Não sei… Sei que até fechar novamente quero fumar lá uns cigarros descansado, beber uns copos e gozar o silêncio recortado pela musica e pela chuva… Em perfeita comunhão comigo mesmo… Em Relax.

Posted by almahperditae at 04:30 PM | Comments (3)

outubro 24, 2006

Nick Tosches - A Mão De Dante

Na contra capa deste livro estão duas frases que gostava de começar por ai ao descrevê-lo. A primeira é a frase com que termina o pequeno texto: “alguns acharão este livro chocante, outros transcendente.”. A segunda frase era a frase com que terminava o texto aquando da edição original americana, frase posteriormente retirada: “Este será o livro mais falado da década.”.
A razão porque a segunda frase foi retirada é bastante simples: um ano depois da edição deste livro, o “Código Da Vinci” de Dan Brown foi editado na América e esse tornou-se o livro mais falado, lido e polémico desta década. Pessoalmente acho o livro… (como dizer de um modo simpático?) uma merda. Mas se algum bem veio ao mundo com o seu sucesso foi o ter criado uma nova e ilusória moda nas massas sobre assuntos que essas massas desconheciam, e sinceramente, ainda desconhecem, mas no mínimo dos mínimos, possibilitou a edição de “A Mão De Dante” em Portugal (criando a ilusão, aqui, que é uma mísera cópia do Código) e felizmente eu tive a sorte de o encontrar por acaso.
Ora bem, primeiro ponto, não é uma mísera cópia do Código, o livro é anterior, em Portugal é que foi editado na onda do Código, mas o livro é anterior. Segundo ponto, embora se mova na mesma linha do Código (religião, artistas medievais e suas ligações à religião e sagrado, conspirações e afins) o livro tem algumas diferenças abismais, em primeiro lugar o rigor, com a excepção de dois pequenos pormenores que julgo estarem errados (segundo a pesquisa que fiz depois) todas as informações que o livro apresenta são rigorosas e verídicas. Em seguida a escrita, perto do sublime por momentos. Por último, a forma fantástica como o autor transpõe para a realidade contemporânea os cultos, os mitos e as religiões apresentadas. Não faz uma descrição, ou sequer uma reminiscência dos cultos ancestrais do Ser Humano, vive-os, demonstra como a religiosidade e a ideia de sagrado pode ser vivida nos dias de hoje, sem a mínima perda quer da ideia do sagrado, quer do modo de vida moderno.
O livro desenrola-se algures entre uma Nova Iorque violenta e obscura momentos antes do célebre 11 de Setembro (fantástica a descrição desse momento na vida da cidade), uma Itália medieval, contemporânea de Dante, e um escritor em fuga através do Mundo (Bora-Bora, Itália, Grécia, França…). O autor guia-nos através de tempos e lugares dispares, com uma ligeireza impressionante, com uma escrita crua e fria, rompendo momentos sublimes e poéticos, na busca de uma espiritualidade, de uma ideia de sagrado que sabe encerrada dentro de si, destilando ódio contra a sociedade, buscando no Vazio da própria Humanidade o sumo do divino, encetando a mesma busca que Dante sete séculos antes encetou. Neste livro, não nos é apresentada a salvação, é-nos dado a conhecer a ideia de sagrado que atravessa toda a Humanidade, é-nos apresentada a ideia de sagrado no mundo actual, e são-nos dado a conhecer dados históricos sobre os enganos em que a religião católica (e não só) nos fez acreditar até aos nossos dias, não do ponto de vista do erro histórico, de conspiração, mas sim das repercussões sentidas ainda hoje em dia. Não é um livro sobre o passado, é um livro sobre o presente, sobre a Vida e todo o seu sumo, sobre a rebeldia e o crime, sobre o amor e sobre o sexo, sobre o dinheiro, sobre o poder, sobre a Humanidade em todo o seu esplendor e podridão, hoje como ontem, na sociedade e no individuo, no grotesco e no belo, na violência e no divino. É um livro intemporal, mas bastante descritivo dos tempos em que se move, procurando fazer uma ligação entre o sagrado e o tempo, centrando-se no cerne do Tempo e do Sagrado – o Ser Humano.
Sim, por vezes é chocante. Mas por certo consegue atingir uma tal noção e ideia de sagrado, de poesia, de beleza que consegue ser transcendente. Sem mais palavras… Aconselho a toda a gente.

Posted by almahperditae at 10:37 PM | Comments (6)