Foi mesmo agora. E num impulso apetece-me escrever.
Chama-se Emanuel, à uns meses voltou aqui à cidade, esteve preso, começou a pairar por aqui na esperança de se adaptar, de encontrar um rumo. Passado um mês as conversas por momentos comentaram o facto "Fodeu-se todo outra vez", "Andou um mesito ainda bom, não tarda nada volta para lá outra vez". Desapareceu.
Hoje vinha a entrar no café para tomar o pequeno-almoço, passou por mim, perguntou-me se tinha visto a irmã dele, não sei quem é disse-lhe eu, acompanhou-me ao longo da rua, "Como foi o Natal?", quis ele saber, sempre o mesmo disse-lhe eu, nós estamos num limbo, já não somos crianças e ainda não temos crianças, o Natal é apenas uma recordação do Passado e uma preparação do Futuro, agora não tem grande significado. "Pois, quando tivermos filhos é que a magia volta" foi a resposta sincera dele, enquanto o corpo lhe tremia da ressaca, essa cruel verdade no meio da mentira.
Fiquei a pensar. Apetecia-me escrever, um texto bonito, poético, falar umas verdades sobre o Natal, a Familia, a Magia, a Infancia. Ligar isto tudo com o Desespero, a Solidão, a Dor, o ser adulto e estar perdido. A Droga, a Hipocrisia, defender o que defendo à anos da legalização... Apetecia-me fazer a comparação entre este Emanuel e o outro Emanuel, o tal que nasceu á uma porrada de anos e ainda hoje comemoramos o pretenso aniversário dele. São os dois o mesmo Emanuel, é a mesma história de vida, nasceram, morreram, ressuscitaram, morreram novamente... Somos no fundo todos iguais, seja um drogado cadastrado perdido na cidade a ressacar, seja o Filho de Deus que num gesto de Amor pela Humanidade morreu por todos nós. Tanta mentira neste mundo, e no fundo tanta verdade nestes dois homens que como o nome indica "emanam Deus".
Apetecia-me escrever... A sério que sim. Daria um belo texto, podia aqui tirar o sumo da Humanidade. Mas não me apetece. Não quando acabei de ver um gajo até bastante fixe a ressacar ao frio, desesperado e perdido à procura da irmã. Todo fodido, ainda com lembranças de quando era criança e o natal era mágico, ainda com aquela centelha de magia nos sonhos, mas com tremuras e com desejos de enfiar a merda da agulha na veia, e fugir por momentos desta merda deste mundo frio, inóspito, desesperado, cruel e trucidante... E aqui está todo o sumo da Humanidade, sem palavras, apenas a emanação de Deus, Nós.
Naquele dia acordei sem ter dormido. Fechei os olhos sem sonhar e os ruidos da multidão do quarto vazio atormentaram-me na dança das sombras do quarto. Havia sempre uma qualquer Morte à espera, um silêncio ensurdecedor no vazio, o coração num ritmo que enchia o negro...
Naquele dia acordei sem ter dormido... E o dia foi um pesadelo que sonhei. Quando o despertador me acordou, o seu grito ribombou nos meus sentidos... PUM!