Este texto não deveria estar aqui. Isto deveria ser um texto para o Templo da Música, mas este disco bateu-me tão forte que nem quero falar da música. A música foi apenas uma banda sonora para eu ler, fascinado, letras que para mim, no dia em que recebi o disco pelo correio, nem poesia eram. Eram letras que li quase como uma carta pessoal para mim. Já ouvi milhares de discos, acompanhando-os a ler as letras, muitas vezes fascinado, já me arrepiei a ouvir discos pela primeira vez, já delirei a ouvir musica milhares de vezes, mas nunca como no dia 28 Fevereiro ouvi, li e senti este disco. A nossa vida é um caminho muitas vezes tortuoso, isso não é surpresa para ninguém, mas a vida tem momentos sublimes que lhe dão o sumo e o sentido que por vezes sentimos não possuir dentro de nós. Entre uns e outros há por vezes músicas, filmes, livros ou poemas que conseguem dizer aquilo que nós não temos capacidade de dizer, apesar de sentirmos esses momentos no mais fundo da alma.
Mas este disco foi algo estranho de contactar pela primeira vez.. Alguma vez acordaram num dia qualquer, sentir no ar algo diferente, pensar para vocês mesmo que há algo diferente, que vocês estão diferentes, e antes sequer de o tentar explicar, enquanto apenas o sentem, o querem sentir, alguém vos diz exactamente aquilo que vocês sentem no mais profundo do vosso ser? Tal e qual… As mesmas palavras que sabem que iriam usar, que usariam caso já estivessem para ai virados? Pois foi isso que me aconteceu com este disco. Uma experiência estranha, cheguei a casa, fui ver o correio e tinha lá finalmente o pacote castanho porque já ansiava à uns dias. rasguei o papel, rasguei o plástico-bolha, olhei o CD, digipack, lindo, todo em preto, com letras em dourado, sem fotografias ou desenhos, apenas um cartão negro, com letras douradas gravadas no cartão, simples mas lindíssimo. Enfiei imediatamente o CD para o ouvir, começou a ecoar nos auscultadores o som límpido de um prato, seguido de uma guitarra acústica deambulando no ar, seduzindo os sentidos… Saltei os olhos para a primeira frase da segunda musica e li: “I’m fighting back my fear of life” e pensei imediatamente “Foda-se!”. Li as letras todas, como se cada palavra fosse dirigida a mim, só a mim, como se um dos meus compositores favoritos, tivesse escrito uma carta para mim, como se tivesse recebido pelo correio não uma encomenda perfeitamente normal de um CD, mas sim uma carta pessoal, com as palavras todas certas, como se a minha alma estivesse ali e alguém me disse tudo aquilo que eu sentia, que eu precisava de ouvir, porque ainda não o tinha escrito, ainda não o tinha pensado, apenas o tinha sentido. e tudo o que ali estava escrito não eram letras de um qualquer disco, não, eram palavras com um único destinatário, eu mesmo, mais ninguém, mais ninguém poderia pensar aquilo, não estas frases, não neste dia, não… aquilo era só para mim, era eu que ali estava, era apenas eu que sabia aquelas palavras, era apenas eu que sentia aquilo, era comigo que o Duncan Patterson falava…
Um disco só para mim… Um disco perfeito só para mim…
Time will tell who I’m waiting for
The light fell as destiny stole you away
As the tears flowed
When I ran to you, and stayed in the cold
Could’ve followed you, and destroyed my soul
But I’ll love you and forgive you as you’ll never know
I’m weary now, if the truth be told
As I ran to you, and stayed in the cold
Though your reasoning bore no light nor hope
In the morning I’ll still love you both
"Todos os dias a Matéria me maltrata. A minha sensibilidade é uma chama ao vento."
(Bernardo Soares/Fernando Pessoa in Livro Do Desassossego)