(to someone very special)
Chegado da guerra, fiz tudo p´ra sobreviver
em nome da terra, no fundo p´ra te merecer
recebe-me bem, não desencantes os meus passos
faz de mim o teu herói, não quero adormecer.
Tudo o que eu vi, estou a partilhar contigo
o que não vivi, hei-de inventar contigo
sei que não sei, às vezes entender o teu olhar
mas quero-te bem, encosta-te a mim.
Encosta-te a mim, desatinamos tantas vezes
vizinha de mim, deixa ser meu o teu quintal
recebe esta pomba que não está armadilhada
foi comprada, foi roubada, seja como for.
Eu venho do nada porque arrasei o que não quis
em nome da estrada onde só quero ser feliz
enrosca-te a mim, vai desarmar a flor queimada
vai beijar o homem-bomba, quero adormecer.
Tudo o que eu vi, estou a partilhar contigo
o que não vivi, um dia hei-de inventar contigo
sei que não sei, às vezes entender o teu olhar
mas quero-te bem, encosta-te a mim.
(Foi à uns meses valentes atrás que ouvi esta música pela primeira vez, num concerto do mito. Apaixonei-me imediatamente pela música, quando comprei o disco aqui à umas semanas até disse à dona da loja "Das melhores músicas dele.", mas hoje, até parece que esta música me quer dizer algo... "Sei que não sei, às vezes entender o teu olhar, mas quero-te bem, encosta-te a mim." Na altura lembro-me que estes versos me bateram com toda a força, afinal, nós homens temos o dom natural da estupidez. Mas depois, ao querer reproduzir o refrão estes versos fugiram de mim, como se estivessem à espera de uma melhor altura para se desvendarem ante mim. Talvez tarde, aqui está, o mito a dizer por todos nós homens, que lá porque somos estúpidos, e muitas vezes as coisas nos passam ao lado, isso não quer dizer nada de negativo. Afinal, foi a Eva que comeu da árvore do conhecimento, o Adão, coitado, só comeu para não ficar sozinho no Paraíso, (por sentir que o Paraíso era onde estava a Eva?), e nem teve nenhum proveito...)
Ao fim de bastante tempo em busca das melhores soluções de download de boa música, eis que encontro... E está tudo em russo!!! Não há uma alma caridosa que tenha vindo das terras geladas dos czares que me queira ensinar russo? Spasiva desde já. Mas um homem desespera a olhar para aqueles caracteres sem perceber a ponta de um corno... Eu andei anos a tentar aprender russo, fiquei-me por pouco mais que as asneiras, o obrigado e as saudações, mas nada me preparava para estas porras de caracteres... Irra...
C'um rui!!! (eu sei... não é assim k se escreve, é com aquelas porras de caracteres, mas quem dá o que tem a mais não é obrigado.)
Nos passos imprecisos da noite, o meu vulto arrastasse entre sombras e silêncio. Percorro mentalmente paisagens que outrora vi, feitas de Sol e verde, e sinto que aqui entre o negro e o frio das vielas sujas e escuras me sinto mais aconchegado, como se a solidão que me cerca me protegesse de mim mesmo. Aqui não sou nada, sou apenas uma sombra que se arrasta em silêncio, percorrendo gritos silenciados na minha mente derrotada. No calor de mil corpos esquecidos, relembro risos que fingi a mim mesmo, e enquanto o fumo do cigarro me envolve, olho a lua, pairando alva e pura sobre os telhados negros de prédios fetos de castelos e sonhos adiados. No seu ventre há talvez risos fingidos, mentiras que se vivem num desespero latente, talvez até haja felicidade verdadeira, daquela feita de sonhos por cumprir que se vivem como se sonhos não passassem de sombras difusas de palavras ingénuas trocadas entre calores e risos reais. Que importa? É uma realidade tão longe de mim, da brisa cortante da noite, dos passos que fogem de mim cavalgando no silêncio, da Lua que sorri prata sobre mim, das sombras dançando nas paredes vazias...
Porque me sinto tão vazio? À tanto tempo que não consigo escrever nada. Sinto um impulso, talvez um grito ou uma lágrima, talvez um sorriso... Que mentira! A verdade é que não sinto nada. Fingo que sinto uma qualquer necessidade para escrever, mas a verdade é que a sinto até ver apenas a folha em branco. Aí perco a vontade de a manchar, não me sinto digno de a sujar comigo, e deixo-a solitária. Abandono a vontade de escrever como abandono outra vontade qualquer, e percorro as ruas vazias, fumando, ouvindo o silêncio, entrando em qualquer lugar para beber um copo, mas tudo em volta está tão morto como eu. Busco nos meus passos perdidos um lugar para me encontrar talvez. Espera... Ouço um som estranho. É a Vida! Afinal existe ainda Vida na cidade que me esmaga... Não era disto que eu andava à procura? Finjo o meu sorriso mais sincero e entro com a confiança que não tenho. E ao sentir a Vida a entrar em mim regozijo. Não era isto que eu queria? Não... Tiro a máscara e abandono-a no chão enquanto viro as costas. Também não era isto que procurava. Mas então... Que busco eu? Porque anseio eu? Porque ando perdido à procura de algo que nem sei o que é? E quando a noite me abandona sozinho, com o último cigarro sento-me no silêncio e finalmente encontro a resposta. Procuro apenas o procurar. Nada mais que o andar perdido. Não quero nada senão o não querer nada. E sempre que desejo algo é até o ter, depois é nada. Quero o Impossível. É isso. Quero o Impossível, mas o Impossível não é possível, e quando o é deixa de ser Impossível... E largo o que tenho porque nada quero que seja meu...
E quando acabou o cigarro, levantei-me, caminhei para casa e sentei-me a escrever um pensamento que senti quando nada sentia. Abandono-o num grito mudo para o atirar ao vento. Para longe de mim... também já não o quero.
Opium, desire or will?
Inspiration bound from an elegant seed
Subversion, through smoke I foresee
Erotic motions of lesser gods in ecstasy
Opium, bring me forth another dream
Spawn worlds of flesh and red,
little jewels of atrocity
Opium, I sleep in debauchery
And burn with you
when you burn in Me
Opium, we fantasize
as we fuse with your root
You are a strange flower,
we are your strangest fruit
Opium, it burns in me and you
Opium, it burns for me and for you
"E por isso eu tomo ópio, é um remédio
Sou um convalescente do momento,
Moro no rés-do-chão do pensamento
E ver passar a vida faz-me tédio."
(Alvaro de Campo/Fernando Pessoa)
A vida são momentos perdidos que se sucedem em ciclos semi-constantes.
Reencontros que se sucedem a encontros, que se confundem com o encontro original, embora mais saborosos pois já possuem o agri-doce da perda do momento original confundido com o sabor da perda do sujeito do encontro. Achar, ter, perder, achar novamente e saber que se perde novamente. É uma imagem poética aquela velha ideia de "agarrar um momento para a eternidade", como se a eternidade não fosse este constante achar e perder, sabendo que no fundo nunca nada nos pertence, e por isso é tão saboroso ter algo por momentos. Um amigo, um copo, um sorriso, um amor, uma paixão, uma violência, uma traição, um amigo... Nada é nosso, mas tudo faz parte de nós. É por isso que eu adoro a vida com todas as lágrimas e todas as feridas que ela me faz... Porque a odeio com todas as minhas forças. Porque me dá por momentos aquilo que eu sei que nunca será meu.
E isto é tão válido para o amigo de "outros outros tempos, porque nem é dos outros tempos, é já dos outros" (parafraseando-me a mim mesmo numa conversa com uma amiga sobre um amigo que reencontrei à dois dias), como para o ter finalmente reinstalado a net em casa e estar lentamente a voltar a usar os programas que usava à uns anos, mas já tudo ser diferente do que era naquele tempo... Tudo passa, tudo muda, tudo avança, mas no fundo... tudo é igual... Momentos que se sucedem a momentos, que antecedem momentos... E coleccionar momentos ao longo da vida, para no fim, juntando todas essas insignificâncias de momentos, ao afastar-mo-nos da vida que vivemos e é nossa e estamos lá enfiados e não a conseguimos ver em todo o seu esplendor, darmos-nos conta que aqueles momentos todos somados fazem aquilo a que os poetas chamam a nossa Alma. A nossa Vida. Lentamente tudo volta, tudo vai... Só nós ficamos.