outubro 31, 2007

Misantropia

Eu não sou exactamente um misantropo, pelo menos não na sua definição etimológica, não odeio o Homem, antes pelo contrário, acho que somos uma espécie com demasiadas particularidades, e demasiado interessante para a odiar. Mas não sou definitivamente pessoa para me embrenhar nas relações humanas, não tenho fobia ás relações humanas, mas definitivamente não são para mim. Isto não significa que seja um amargurado, as desilusões que tive foram todas assimiladas do mesmo modo, raiva e explosão inicial, aceitação posterior, e por fim a indiferença. Toda a gente conhece pessoas de merda durante a sua vida, eu não sou excepção, e só tenho pena de rapidamente esquecer isso e nem uma ponta de ódio me sobrar, e por isso já não foi a primeira nem a segunda vez que foi fodido pela mesma pessoa uma e outra vez... Mas nem isso me aflige muito...
A minha questão é, e sempre foi a mesma, tenho uma necessidade quase patológica de solidão. Adoro o silêncio, adoro ficar acompanhado apenas e só pelos meus pensamentos, adoro fazer as coisas ao meu ritmo, adoro fazer apenas e só o que me apetece. Detesto a mediocridade, detesto a banalidade, detesto o carneirismo, detesto as modas, detesto o politicamente correcto, detesto gente sem a mínima personalidade. Detesto quem faz e diz apenas o que pensam que querem que façam e digam, detesto poses, detesto competições imbecis, sim... detesto o lado imbecil da Humanidade. E aí sim, sou Misantropo.
E porque isto tudo? Por um simples desabafo. A Humanidade não me detesta. Eu isolo-me, visto-me de forma a afastar as pessoas, sou frio, sou distante, inacessível... Gosto das pessoas, a sério que gosto, gosto das suas particularidades, gosto de as ouvir, gosto de falar com elas, gosto de discutir filosofias de vida. Gosto de uma boa piada, gosto de um copo partilhado, gosto de sorrisos sinceros e vazios, gosto de comprimentos de até outro dia, até à próxima, gosto de aprender, gosto de descobrir. Mas estou cansado... Estou cansado...
Quero estar sozinho, quero beber um copo em silêncio, fumar um cigarro em paz... Quero ser um vulto, negro, sozinho, não quero que ninguém me fale, quero uns dias assim... Não quero multidões, não quero que me venham falar de merdas que não tenho o mínimo interesse, não quero aturar as bebedeiras de ninguém, quero ser um fantasma. Não é a falar mal de ninguém, a sério que não. Se alguém que me conheça pensar que esta entrada é dirigida a alguém em especial, ou mesmo a ela própria acreditem que não é. Não estou de mal com ninguém, as pessoas com quem não quero falar digo na hora, conhecem-me, sabem disso. Mas estou cansado, gosto que me digam umas piadas, que se metam comigo, mas agora não, prefiro ficar aqui, longe, sozinho. Hei-de encontrar um bar ou café novo, para ir sem ninguém me conhecer, para ficar lá sozinho, beber o meu Carduh, fumar o meu cigarro, ler a Bola, beber um café... Afasto-me, em silêncio, como sempre o fiz, isolo-me, aguardo... Aguardo a Morte que um dia me encontrará, em silêncio, no meu canto, ninguém irá saber. Ninguém irá ao meu funeral. Ninguém irá derramar uma lágrima, irão talvez beber um copo em minha memória, irão sorrir e esquecer-me... Serei um nada, um nada que já sou, serei um fantasma, o fantasma de mim mesmo...

Posted by almahperditae at 01:05 AM | Comments (34)

outubro 27, 2007

Amorphis - My Kantele

(Quem melhor que uma grande banda para falar da Música?)


Truly they lie, they talk utter nonsense
Who say that music reckon that the kantele
Was fashioned by God
Out of a great pike's shoulders
From a water-dog's hooked bones:
It was made from grief

It's belly out of hard days
Its sound board from endless woes
Its strings gathered from torments
And it pegs from other ills
Truly they lie, they talk utter nonsense

So it will not play, will not rejoice at all
Music will not play to please
Give off the right sort of joy
For it was fashioned from cares
Mouldered from sorrow

Posted by almahperditae at 06:46 PM | Comments (0)

outubro 22, 2007

Patrick Suskind - O Perfume

Poderão quinze milhões de pessoas estar erradas? Claro que podem, os fenómenos de massas geralmente deixam bastante a desejar, mas se há livro que merece toda a aura que o rodeia, e se há livro que merece ser vendido aos milhões, e aparecer na lista dos favoritos de tanta gente, esse livro é “O Perfume (história de um assassino)” de Patrick Suskind. Haverá alguém que ainda não tenha lido este livro? Haverá alguém que nunca tenha ouvido falar desta obra-prima? Haverá decerto, mas uma rápida busca resolverá esse problema, face à avalanche de comentários, de criticas que há sobre este livro na net... E eu recentemente fiz isso, fiz uma pesquisa sobre este livro, e acho que falta ainda uma... Mas não, não vou dizer o que eu acho e o que eu sinto do livro, vou ser bastante mais superficial. Vou apenas tentar explanar quais são para mim os dois pormenores que fazem deste livro uma obra genial, fenomenal e única. Porque acreditem que este livro é único, não há nenhum como ele... embora não seja o meu livro favorito (esse lugar entrego-o a “A Caixa Negra” do grande escritor israelita Amos Oz) a verdade é que admito sem a mínima hesitação que estou errado. “O Perfume” bate aos pontos essa minha preferência, e de um modo racional acho que este poderá ser considerado um dos livros do séc. XX (e já agora... de sempre). Mas... o que tem este livro, que faz com que quem o leia fique imediatamente cativado pela genialidade desta obra? Alguém já alguma vez ouviu alguém dizer que não gostou deste livro? Sejamos racionais... “Os Maias” de Eça de Queiroz é provavelmente o melhor romance jamais escrito, e apesar disso o que não falta neste país é gente a falar mal desse livro e a dizer que o detesta. Mas nunca ouvi ninguém falar mal desta obra de Patrick Suskind, antes pelo contrário, quem o lê imediatamente o adiciona à lista dos favoritos (ou na generalidade dos casos, torna-se imediatamente o livro favorito) e isto por duas razões... Não muito simples, aliás, por duas razões únicas, que provavelmente não se encontra em mais nenhum livro...
A primeira e mais simples de descrever, é a originalidade do livro. Este talvez seja o único cuja descrição das personagens e dos lugares e de tudo o que rodeia a história não é uma descrição visual, mas sim uma descrição olfactiva. E esse o início da grande genialidade do livro... Com devem saber, o olfacto é o sentido mais primário do ser humano, o mais animal e irracional. Mesmo sem o sabermos, sem nos darmos conta, é através do olfacto que nos relacionamos com as outras pessoas, é através do olfacto que nascem e crescem todas as nossas emoções, é através do olfacto que a nossa memória funciona, e todo o nosso universo humano se movimenta. Inconscientemente, irracionalmente, livremente…
E este é o único livro que eu conheço que se movimenta nesse universo irracional e puro. E por isso o livro tem esse poder de nos hipnotizar irracionalmente, porque ao nos descrever os odores, a nossa memória imediatamente é activada e a nossa imaginação se deixa embrenhar pelas situações, pela envolvência da história…
Mas a segunda genialidade do livro é ainda mais… genial!
Ao nos activar a memória olfactiva (a nossa memória mais primária e animal), ao nos envolver de um modo tão irracional, o livro transpõe-nos imediatamente para a história, para as situações e principalmente para as emoções descritas. E aí… Ao atingir o nosso inconsciente, já não é a história da personagem que nós acompanhamos, é a nossa própria personagem, o nosso próprio Eu, somos nós que estamos ali descritos… Estamos a ler-nos a nós! Por essa razão o livro nos atinge de uma forma tão visceral, intensa e pessoal. Por essa razão, por mais que procurem interpretações e opiniões sobre o livro, nunca encontram duas opiniões iguais, todas elas são diferentes, porque ninguém descreve a personagem principal, cada opinião é a descrição do inconsciente de quem lê o livro, o seu lado mais puro, irracional e verdadeiro…
Parece que há agora um filme baseado no livro… Eu não vi, mas este é um daqueles livros impossíveis de transpor para filme. Não sou da opinião de que “os filmes são sempre piores que os livros” (“Senhor dos Anéis” e “2001 – Odisseia no Espaço” são apenas dois exemplos de que os filmes podem ser melhores que os livros), mas este filme… Mesmo sem ver, sei à partida que é impossível ser melhor que esta obra-prima da Literatura.

Posted by almahperditae at 08:02 PM | Comments (2)

outubro 15, 2007

Balada Do Medo

Enquanto sinto o frio tomar conta de mim, não consigo deixar de pensar... Foi já à tanto tempo que me abandonei, que não consigo deixar de pensar... Tive tudo quanto desejei. Perdi tudo isso, sem saber que o perdia. Havia sempre uma qualquer razão, o destino que me queria surpreender, pensava eu, e nunca percebi, que apenas me estava a perder... Envelheci. O tempo não me poupou, cada dia estava mais perto da Morte, e nunca o percebi... Um dia não era nada, era um periodo estanque entre o acordar e o deitar. E nesse nada me perdi... Agora, olho as sombras desenhadas no pó, sentindo o tempo tomar conta de mim, sem conseguir fugir, sentindo o frio da Morte penetrar nos meus sentidos, e não consigo fugir, estou preso nas memórias do que não tive, redesenhando toda uma Vida que perdi, e pergunto ao silêncio que me tomou, como hei-de fugir?
Estático, sentindo o vento penetrar no casaco gasto, vejo passar por mim jovens como eu fui, ainda sorriem tanto, e não consigo deixar de pensar que também eles se vão perder...
Nas brumas das memórias que perdi, procuro uma centelha de esperança, pegar esse momento e repeti-lo à eternidade, sentindo que vivi. Mas não me lembro de nada... Todos os dias são iguais, e todos os dias são vazios, será que não vivi? Será que agora que não consigo correr atrás da vida, é que percebi que sempre estive morto? É o medo a tomar conta de mim, esse gume frio que me desespera, o medo de tudo ter perdido, e a tristeza de agora o perceber... A minha vida não existiu. Sempre estive morto... (E o frio que não me larga os ossos...) Este frio... Este medo da Morte, que sinto agora, que a Vida se perdeu enfim... A certeza de que não vivi...

Posted by almahperditae at 04:07 AM | Comments (0)

outubro 05, 2007

Fogo Fátuo

No tormento do teu corpo
Anseio por toques carnais,
Rasgando multidões enfurecidas
Na passagem do Tempo inócuo.
Sentir a aspereza da pele suave,
Revolucionando-se nos meus sentidos,
Incendiando o mais escuro sofrer da minha solidão…

Se eu fosse o fogo que me queima,
Decerto serias hoje lenha para me arder
Consumindo-te no pulsar de cada segundo
Vazio de toda a minha emoção delirante.
Se eu fosse o fogo que me queima,
Entraria por ti,
Dilaceraria todos os teus gritos,
Faria de ti suor,
Êxtase sufocado e adiado
Na cruel espera da tua Morte…

Se eu fosse o fogo que me queima…
Seria uma chama negra na noite colorida…

Posted by almahperditae at 10:44 PM | Comments (7)