Ando a ler os diários de Kafka. E logo no início li algo que me fez pensar demasiado. Ele fala dos factores que não o deixam escrever por mais de um ano, factores esses que nunca são completamente desvendados, mas fala de algo como “é preciso aguentar as verdades que escrevemos, e eu sinto-me demasiado fraco para as encarar”. Hoje enquanto bebia o meu copo, fumava os meus cigarros intermináveis, pensava na similitude entre o seu caso e o meu. Também não consigo escrever. Está bem, nunca escreverei como o Kafka, mas isso apenas por uma diferença de qualidade, talento e grandeza. Mas escrevo, gosto de escrever, e na devida proporção, também me sinto com algum talento, e sinto também este marasmo que me sufoca…
Veio-me à cabeça a seguinte frase “A Arte é o excesso de Vida.”, apontei-a no telemóvel, e quando paguei a despesa já tinha na mente um rascunho e uma ideia do que escrever.
Eu não consigo escrever, pelo simples facto que não tenho o que escrever. Durante anos, escrevi esse excesso de Vida que tinha em mim. Esse excesso não conseguia ser partilhado com mais ninguém, em mais nada, pelo simples facto que não existe ninguém capaz de me acompanhar nesse excesso de vida, não existe lugar em que eu me consiga expandir a ponto de deitar para fora de mim esse excesso de vida que eu tinha. Por isso, acompanhando o normal desenvolvimento da minha pessoa, a minha escrita evoluiu comigo, e ia deitando para o papel aquilo que eu sentia dentro de mim, e me sobrava da Vida. Quem me conhece e me lia, dizia que eu era um exagerado, ou que eu era um apaixonado, ou que eu era um sonhador, ou que eu escrevia com demasiada intensidade. Em suma, que aquilo que eu escrevia não era aquilo que eu era, era algo mais, a tal minha tendência para “exagerar tudo”. Mas não exagerava nada. Aquilo que eu escrevia era aquilo que eu sentia, mas só aqui, em palavras mortas, eu o podia viver. Há limites para a Vida, por mais que eu os tenha esticado ao máximo, ainda havia muito mais que não conseguia viver… escrevia-o. Mas algures há uns tempos atrás, a minha escrita tornou-se repetitiva, cada texto que eu escrevia soava-me sempre a um outro que já tinha escrito, a muitos outros que já tinha escrito. Lentamente fui desistindo, com tentativas esporádicas, por necessidade, por uma ténue esperança de desbloquear aquilo que pensava bloqueado. Neste hiato existe um poema, dolorosamente pessoal, que escrevi o ano passado, 12 páginas de um jorro de 50 minutos, que é a única excepção à merda global de tudo o que escrevi. Talvez aquele seja o caminho…
Mudei, é certo. E este hiato deveu-se apenas a estar farto de repetidamente escrever o mesmo texto. Ainda não sei para onde ir, ainda não me sinto capaz de encarar aquele poema escrito o ano passado, ainda não sei como por em escrita “cifrada” o que o poema me disse tão claramente, por isso, ou encaro-me e escrevo sem cifras, ou descubro a cifra de escrever o excesso de vida que tenho em mim, ou simplesmente desisto da escrita e passo a dedicar-me ainda mais à guitarra e à composição. De qualquer das formas, uma coisa é certa. O Delírios terminou.
Ainda pensei em aguardar pouco mais de uma semana, e escrever este texto no quinto aniversário do blog. Mas que se lixe… vai mesmo agora. Não vou desistir da blogosfera, se é que ultimamente aqui tenho andado, mas vou passar a tentar escrever no blog que criei há dois anos e abandonei há dois anos, quando estive para desistir do weblog.com.pt. As entradas que lá estão (poucas, duas desta semana) não fogem nada do que aqui fiz, daqui para a frente… Não sei… provavelmente ainda me agarrarei a certas técnicas, certas imagens que muito me dizem, mas vou tentar ver para onde me levará o meu “excesso de vida” que já é diferente. Não será nada de radicalmente diferente, a pessoa é a mesma, isso eu sei, mas há uma ligeira diferença, facilmente explicável. A palavra-chave deixará de ser “Oblivion” para passar a ser “Impossível”. Sim, sou básico a esse ponto, uma palavra resume tudo. A esmagadora maioria do que aqui escrevi, não tinha nada a ver com Negro ou Morte, isso eram ideias que definiam esse tal Oblivion, que não tem uma tradução para português, e essas serão ideias que se manterão na “fase” do Impossível, porque essas são as ideias base. Porque a ideia de Negro e Morte nunca foram literalmente o Negro e a Morte, apenas e só, quem não o percebeu, deveria de reler.
Agradeço do fundo do coração a toda a gente que aqui perdeu o seu precioso tempo, aos comentários e mails dirigidos à minha pessoa durante estes cinco anos, muitas vezes, nem imaginam o bálsamo que singelas palavras vossas foram para a minha alma. Obrigado a toda a gente, mesmo aquelas que já aqui não vêem, mesmo aqueles que me insultaram, mesmo aqueles que apenas entraram uma vez e desligaram imediatamente devido às imagens “estranhas e fortes”. Não quero mentir, mas apesar de tudo, acho que o recorde de longevidade neste servidor é meu lol E poucos, muitos poucos blogs sobreviveram entre o primeiro post e o ultimo, 258 ou 259 semanas… Sou Touro, teimoso, e não gosto de pontos finais. Mas desta vez, ponto final paragrafo.
FIM