agosto 13, 2005

Cadáver

A fronteira entre o Ser e o Vazio esvaisse no fumo hesitante.
Num suspiro inerte que gemo num chão sangrento de pele seca,
Mergulho num abismo familiar
Que me rasga os sentidos moribundos.
A carne apodrece no pulsar dum segundo vazio,
E toda a força que não tive perdia...

(na chama de gelo morri!)

O meu silêncio apenas é quebrado pelo grito que não gritei,
E nesse espaço de Tempo aguardo o que não virá,
Réstias de sonhos que flutuam no negro,
Cadáveres prostrados em cerimónias solenes,
Fronteiras guardadas por exércitos derrotados...
Quis a Humanidade toda,
Fiquei com uma lágrima derrotada no peito,
Ergui-me ao vento que me acariciava o cabelo
E cai da montanha que nunca tinha escalado.
Espanquei a Terra com saliva de sangue
Mas os meus lábios beberam areias de desertos rochosos.
Sentei-me num trono sem reino,
Orei a um Deus que não existia,
Fui acólito de causas que não acreditava,
E todo eu era fecundidade de nados-mortos.

Rasguei peles e lágrimas,
Gritos e vazios,
Universos e veias.
Bebi todo o sêmen,
Vomitei néctares,
Cuspi na face de todas as estátuas,
Violei prostitutas,
Assaltei mendigos,
Gritei palavras que não conhecia
E repousei sobre jardins de granito.
Fiquei com uma mão fechada sobre um Nada.
Patético triunfo sobre o Vazio que era eu...

Acordei dum sono que nunca dormi,
Vi os meus restos mortais,
Derrotados sobre cinzas incandescentes de gelo,
Sorri perante a minha própria Morte
E estanquei o sangue que me cobria,
Olhei as serpentes dormindo sobre mim,
Acariciei-as...
Beijei-as...
Fiz delas o que nunca fui,
E olhei um nascer de um Sol numa noite que nunca acabou.
Olhei ao espelho de sal,
Um feto apodrecendo,
Túmulo de um útero estéril,
Desejo inerte de conquistas vagas.

Na minha lágrima entrei e sorri.
Fiz dela um diamante por lapidar,
Abandonei-o na terra salgada,
Deitei-me sobre as asas que me acariciavam
Abracei o Vazio,
Bebi do rio sangue em que me banhava,
Abri a mão vitorioso,
Deixei escapar o vento que era meu,
Gritei mas não venci o silêncio,
Dentro de mim o abismo abriu-se
Era luz apodrecida de negro,
Feridas de batalhas que não travei.

Chorei dentro do buraco negro,
Em silêncio, sem ninguém ver,
Abandonei o palco sem cantar,
E deitei-me na cama de pétalas podres.
Olhei o meu cadáver,
O cadáver que sempre foi meu,
A única carne e pele e sangue certeza...
Chorei no silêncio da noite.
Múrmurios secos de sal,
Espadas trespassando a minha carne,
Gangrenas na alma derrotada de Mim...
Sou o meu próprio cadáver...


Posted by almahperditae at agosto 13, 2005 05:01 PM
Comments

e sou toda eu um arrepio deposi de ter lido isto...

Posted by: impressaodigital at agosto 15, 2005 04:57 AM

Espero que um arrepio bom ;)

Posted by: Almah Perditae at agosto 15, 2005 08:32 PM

não foi mau... ehehe

Posted by: impressaodigital at agosto 16, 2005 01:07 AM

Fixe... Estou feliz :)

Posted by: Almah Perditae at agosto 20, 2005 06:06 PM

parabéns pelo blog..talvez queiras visitar este e encontrar talvez algo em comum:ajmpoetry.blogspot.com
fico a espera de comentários,vírus, críticas e insultos..lol

Posted by: moonblood at dezembro 9, 2005 04:09 PM

Fica já decorado. :) Infelizmente neste momento não posso, mas a proxima x k vier à net vou lá :) behave

Posted by: Almah Perditae at dezembro 19, 2005 01:14 PM
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