setembro 28, 2005

Conto de Uma Noite Só

Ele entrou no café. Desenhou uma dança por entre as mesas e sentou-se no balcão. Acendeu um cigarro com o vagar do tempo cadente e esperou pelo café que pediu. Todos os sons do café eram ele: o jogo de futebol na televisão, os homens ruidosos que assistiam ao jogo que talvez fosse importante, a mulher sentada na mesa do canto, falando ao telemóvel com voz alta, não se importando com os outros, tinha confiança em si, a rapariga por detrás do balcão que arrumava copos sujos na máquina de lavar, sem grande cuidado, tinha mais que fazer, os copos batiam uns nos outros e o seu som de vidro ecoava tímido e rápido. Ele ouvia tudo, ele era tudo, o som da vida, a música do mundo… Ouvia… Sentia… Embriagava-se no turbilhão da vida, enchia-se com todos os sons, sentia todos os ruídos, fazia parte do todo, e ai se anulava. Confundia o seu silêncio interior com o ruído do mundo que o rodeava, tornava-se Uno com tudo, preenchia todo o seu Vazio. Ouvia apenas. Diluía-se no Todo.
Ela sentia o peso dos sacos no corpo cansado. Pairava pelas ruas, olhando as montras, olhando o vazio que tinha dentro dela, sentindo tudo através do vazio que crescia dentro dela, o vazio que cada vez tomava mais conta de si, o Vazio… O Nada… Arrastava-se na multidão, sentindo tudo através sempre do mesmo vazio, sem conseguir gritar, expulsar, exorcizar o vazio… talvez a Felicidade não existisse, talvez tudo fosse apenas um sonho, talvez a vida não fosse mais que uma longa espera pela morte. Talvez… E a cidade despia-se ante seus olhos cansados, passava pelo seu corpo cansado, e ela olhava através de si, do seu vazio, e queria gritar alto, encher o mundo com os seus gritos, com a sua pessoa, rasgar o seu silêncio com os gritos que a sua mente gritava silenciosamente. Pairava pelo mundo. Gritando em silêncio. Desvanecendo-se no Nada.
Ele saiu do café. Caminhou por entre as pessoas apressadas, esperando algo que nem ele sabia ao certo o que era, talvez não esperasse nada… O Sol começava a banhar tudo de sangue, um pouco mais e as ruas eram conquistadas pela noite, e ele caminhava… Caminhava por cima dos últimos raios de Sol, pisando cada pedra com o vagar de ser a ultima, como se o seu caminho fosse apenas o caminho que tinha que percorrer para não estar parado. Como se aquele não fosse o seu caminho, como se aquelas ruas, aquelas pessoas, aqueles passos fosse um grito desesperado a encher o silêncio que o consumia. Como se caminhasse estando parado, como se o seu caminho solitário não fosse um caminho, mas apenas passos ecoando sem sentido na cidade, ecoando nele, como se não pudesse parar, como se não suportasse o silêncio. Por isso continuou caminhando na luz cada vez mais ténue das ruas que se despiam, se cobriam de silêncio, ouvindo os seus passos, só, sentindo o peso do seu corpo no chão, caminhando, só, sentindo o ecoar dos seus passos vazios na calçada, caminhando, só…
Ela sentou-se numa esplanada. Olhava as sombras dos prédios, as janelas brilhantes, as paredes rubras, as ultimas résteas de luz. Mal programados, os candeeiros começavam a acender-se, pálidas tentativas, inútil conquista ao Sol, a sua luz ainda era um nada, um vazio. Talvez fosse como ela. Sentia-se com tanto dentro de si, tinha tanto a dizer, cada dia que passava, cada hora, cada minuto, mais palavras que tinha dentro de si, que desenhava na sua alma, que queria partilhar, queria expulsar de si, mas ninguém a ouvia... O silêncio a que era votada fazia-a sentir-se vazia. Tal como aqueles candeeiros, que daqui a poucas horas serão a réstea de luz das ruas negras, mas agora, ainda com o Sol a dominar o horizonte de prédios, não passavam de um Nada, de um vazio. À sua volta toda a gente tinha algo a dizer, mas ninguém a queria ouvir… Ela era como um candeeiro aceso durante o dia. Iria escrever isso no caderno que ouvia os seus gritos mudos. Ninguém a ouvia, escreveria isso no seu caderno, que a ouvia sempre.
Ele entrou num jardim. Sentiu os seus passos esmagarem pequenos torrões de areia. Ao longe, ao fundo do jardim, os risos das crianças ecoavam através do rumor do vento nas copas das árvores, era a música do silêncio, ele estacou, olhava a alameda, o verde da erva, o vermelho do Sol, a cor terra dos troncos, a luz das folhas, e ouvia… Ouvia o vento, os risos, os seus pés, a cidade ao longe, tão longe, tão distante, no fim da areia sob os seus pés. Acendeu um cigarro e ficou a fumar, sozinho, no meio do jardim, em pé, ouvindo o vento, as folhas, as crianças, a cidade…
Ela cansou-se. Disse tudo o que queria dizer, o caderno não a ouvia, apenas ela tinha a latejar na sua cabeça as palavras, ninguém a ouvia, apenas ela possuía as suas palavras, levantou-se e continuou a andar através da cidade, contemplando tudo com o seu vazio, com o silêncio de ninguém a ouvir, apenas ela tinha em si as suas palavras… Caminhou com o peso dos sacos, sempre constantes, cada vez mais pesados, caminhou com a sua alma cada vez mais cheia, e sempre no constante silêncio de ninguém a ouvir. Olhava as pessoas, as crianças, os jovens, os idosos, todos com a mesma pressa, mas cada um com a sua direcção: a pressa de correr, a pressa de chegar, a pressa de fugir… As cidades são homogéneas, vontades diferentes, vidas diferentes, sonhos diferentes, desejos diferentes, mas tudo é confundido na multidão, porque todos fazem os mesmos gestos repetidos, apenas têm objectivos diferentes. E o Sol, indiferente a tudo isto, já quase deu lugar á noite.
Ele sentou-se num banco de jardim. Queria ficar ali a ver as ultimas réstias de Sol, queria ficar ali a ouvir a cidade, lá ao longe, na distancia, cada vez mais adormecida, cada vez mais silenciosa, com ele cada vez mais uma penumbra, cada vez mais nada. Ouvir o ultimo choro da ultima criança, antes de passar com a mãe à sua frente, ouvir a criança engolir a ultima lágrima, e a voz doce da mãe a dizer com voz cansada que amanhã havia mais, era tempo de regressar a casa. E depois… Quando o jardim estiver mergulhado no silêncio, quando os carros que passam no fim da alameda de terra já não buzinarem, quando a água do lago dos cines sem cisnes, for o único murmúrio nas sombras do jardim, ele ficar ali, no silêncio. Ele ficar ali, no escuro. Ele ficar ali, sozinho. À espera de nada, à espera daquilo que nem ele sabia o que era. Ele, o jardim, o silêncio, a escuridão… A longa espera pela morte, o longo silêncio que o embala e esmaga.
Ela entrou no jardim. Queria gritar à noite que estava viva, queria rasgar o longo silêncio que a cobria, mas ninguém a ouvia, ninguém queria saber, e ela ia refugiar-se no jardim, chorar, gritar, encher-se com o vazio que a enchia, morrer na noite e no escuro, até ressuscitar. Caminhou pela alameda, já estava vazio o jardim, só ela sobrava no meio daquele vazio negro. Caminhava no silêncio, queria explodir à noite, chorar, gritar, cuspir ao ar que estava viva, que ali, entre a relva e as árvores havia também vida no escuro, no ventre escuro da cidade. Derrota final, perder as força por fim, pousar os sacos no chão, sentar-se num banco, sentar-se num banco e chorar em silêncio. Era melhor esquecer os gritos mudos que a enchiam, desistir apenas, sentar-se, morrer, ressuscitar…
Ele ouvia. Ouvia o silêncio, ouvia o vazio, ouvia a solidão. Quando acordou da letargia, ouviu algo concreto. Passos? Ouviu os grãos de areia a serem esmagados, suavemente, gentilmente. Ouviu a respiração da mulher que se aproximava, perdida, cansada, talvez dos sacos das compras. Sem o ver, sem ver nada, cega ante todo o Universo, ante ela mesma. Caminhou na sua direcção, sem o ver, sem ver nada, estava escuro. Quando distinguiu a sua sombra na noite, hesitou primeiro, avançou depois, já nada tinha a perder…
Eles morreram um no outro.

Posted by almahperditae at setembro 28, 2005 04:15 PM
Comments

nem era preciso dizeres para eu comentar...

vou tentar ser critica, não sei se consigo passar do "gosto ou não gosto" lol Porque de outra maneira terás sempre qualquer coisa para contradizer lolol

Gostei do "ele" e do "ela".
Gostei da simbiose das personagens ao longo do texto...do culminar, do acabar: em morte...mas não em fim! Ou então um fim abstracto... um fim em que "Eles morreram um no outro." que bem poderia ser "eles morreram um para o outro", pelo "simples" facto de se sentirem iguais de formas não tão distintas entre si, mas apenas diferentes!
Fiquei sem saber o fim do texto. Talvez não tenha percebido...e por isso gostava de saber o porquê de escreveres "eles morrerem um no outro".


O cruzamento das personagens é feito dessa maneira, pelas semelhanças entre eles e não tanto pela aproximação fisica, que é apenas final...única e singela, se bem, que não simples.
Muito bem, a parte da contemplação do "ele" e do grito mudo dado pelo silencio do "ela". Entendi neste texto um "nós" calado, em entre-linhas. um "nós" de cada um que se vê reflectido nisto em algum momento.
Bom apontamento o por-do-sol do "ele" e do acender dos candeeiros do "ela"... entre o apagar e o acender denoto uma esperança na "luz ao fundo do túnel", mas sendo ela a vontade e não a lógica da vida.
Não te sei explicar a razão, mas a imagem do jardim ficou muito bem neste texto...poderias ter falado numa praia ou no cume de uma montanha, mas não! o jardim não é tão romantico como uma praia nem tão lirico como uma montanha, o que o torna especial por ser "banal" tão "comum" como "ele" e "ela".

Posted by: impressaodigital at outubro 7, 2005 09:07 PM

Xii...
Vou confessar-te que viste bem mais do que pensei...
Pois bem, a ideia é entrecruzar duas solidões no meio da cidade. O que pretendi foi escrever sobre a cidade e o efeito esmagador que ela faz no individuo, quer seja o silencio de não ter a quem falar, ou o silencio de não ter quem ouvir, o ele quer ouvir, e ela quer falar apenas por questoes machistas lol elas falam, eles ouvem lol como tal o jardim não funciona como um intermédio entre a praia e a montanha, mas sim como a réstia da natureza e do selvagem no meio da cidade (imagem que tentei transmitir com o ruido da cidade ao longe), por isso o jardim era a unica hipotese que coloquei, porque a praia ou a montanha já não faria parte da cidade.
O morreram um no outro é pura e simplesmente a partilha entre dois desconhecidos, culminando em sexo? Na minha ideia sim, mas isso é secundário (ou nem tanto porque metade ou mais das vezes em que escrevo a palavra morte nos meus textos, esta tem o significado de sexo, eu tenho a ideia que o momento do orgasmo deve ser muito semelhante ao momento da morte por isso...), daí o titulo "Conto de Uma Noite Só" que tem 3 significados: o te-lo escrito em apenas uma noite, o ser o conto sobre uma noite única entre os dois, e o ser o conto de uma noite em que eles se sentiam sós. Como tal morreram um no outro para ressuscitarem.
O nós existe como é óbvio, mas o nós acaba por ser o nós sozinhos mas no meio de tanta gente que se sente sozinha como nós (não sei se tu sabes, mas no mirc a minha nick favorita era Insolitudewecry, que tem tudo a ver com isto, nós todos sozinhos).
Hum... basicamente é isso, é muito simples, Nós e a Cidade, trucidadora do individuo. Talvez seja por eu viver numa cidade louca, mas a vida nas cidades parecem-me tão irreais, tão doridas, tão banais, tão vazias que muitas vezes dou por mim a pensar o que haverá por baixo do que vemos, as tragédias humanas que nas aldeias tomam proporções apocalipticas, mas numa cidade nunca passam de pequenos fait-divers num canto dum jornal. Confesso que isso é algo sobre o qual dou por mim muitas vezes a pensar, mais ou menos como no Annie Hall do Woody Allen, em que eles estão num banco de jardim a adivinhar como são as pessoas que passam por eles, apenas olhando para a sua maneira de andar, a roupa, e todas aquelas coisas completamente banais e que se confundem no meio dum mar de gente.

O outro conto que tenho aqui no blog tambem é sobre o mesmo tema, com a diferença que ai não o identifico como uma cidade mas como uma aldeia, as pequenas aldeias que existem no meio da cidade, nesse caso particular, Belem em Lisboa lol porque esse conto é quase na totalidade real, vivi-o, é tudo real até ao final, final que se reparares na diferença da data entre aa ultima parte e o restante podes adivinhar que me deu muita dor de cabeça lol porque eu estava a escrever sobre uma tarde que eu passei e cheguei a um ponto que vi que tinha que mudar aquilo radicalmente porque senão era uma página de um diário e não algo de ficção que era a minha ideia, por isso limitei-me a reescrever o meu diário dum modo mais.... surreal lol mas estive muito tempo a pensar o que raio fazia daquilo, lembro-me que tive mil e uma ideia mas... lol

Bem... Acho que não contrariei muito lol ou contrariei?
jinhos

Posted by: Almah Perditae at outubro 12, 2005 06:14 PM

Não, não contrariaste!! Estava ansiosa por ler a tua resosta! ve la o tempo que demorei!!! gostei de ter ter surpreendido por ter visto mais do que pensaste...é bom saber que confias nas minhas capacidades de avaliação! lolol

Posted by: impressaodigital at outubro 21, 2005 04:15 PM

Convencida :P
(palavras tuas, não minhas lol)

Posted by: Almsh Perditae at outubro 25, 2005 10:09 AM

não me lembro de tal, mas pronto... :P

Posted by: impressãodigital at novembro 4, 2005 08:00 PM

quem não te conheça que te compre :P lol

Posted by: Almah Perditae at novembro 7, 2005 07:19 PM

brigadinha, tá??

Posted by: impressaodigital at novembro 15, 2005 04:27 PM

De nada :)

Posted by: Almah Perditae at novembro 30, 2005 07:49 PM

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