julho 17, 2006

Outono

Era Outono. As folhas cobriam o chão, e as árvores despiam-se e revelavam a sua nudez. Os dias passavam ao sabor do vento cada vez mas frio, e uma chuva miudinha punha uma mascara de tristeza em todas as caras. O Verão, o Sol, o calor, a liberdade, os longos dias, e as noites quentes eram já uma recordação distante a medida que os corpos se iam cobrindo com mais roupa, cada vez mais escura, cada vez mais grossa. De vez em quando o Sol aquecia o chão molhado e o ar ficava com um ambiente sinistro devido aos reflexos da água. Foi num desses dias que a vi pela primeira vez, saindo duma pastelaria que ficava perto da baixa. A sua figura recortava-se no meio da multidão que deambulava perdida naquele final de dia. Segui-a com o olhar até desaparecer numa rua que subia para o Bairro Alto. A sua essência perdurou um pouco mais na minha mente, como uma memória antiga, do passado, que me vinha assombrar, como o desconhecido demasiado familiar, uma sensação estranha que me aflorava os sentidos. Não a conhecia de lado nenhum, pensava eu, mas a sua figura parecia demasiado familiar. Acabei por a esquecer à medida que os minutos avançaram.
Passados dois dias, fui lanchar à pastelaria em frente, como tantas vezes vou, entrei e disse o cumprimento da praxe a empregada e comecei a falar sobre as banalidades do noticiário do dia, ela ostentava um sorriso profissional, e eu ia comendo um bolo para enganar a fome. Foi nessa altura que ela entrou. Com um vestido negro até aos pés, e um sorriso tímido iluminado pelos olhos azuis, de uma profundidade hipnótica. Olhei-a quase que fixamente, e ela reparou, e olhou para mim, enquanto eu tentava disfarçar o meu embaraço. Sorriu. Pediu com uma voz suave um café, e os meus sentidos estavam embrenhados no seu ser, mas não tinha coragem para a fixar. Enquanto me vinha embora olhei para trás o mais discretamente possível e olhei a sua forma sensual, fascinado por tamanha beleza e serenidade. Como é possível amar uma estranha? Talvez por o Amor ele mesmo ser um sentimento estranho?
Vários dias se passaram, várias noites se arrastaram, e pouco a pouco a sua memória dilui-se na confusão dos dias. A sua figura passou a ser uma memória irreal de um qualquer filme que tinha vislumbrado sem ver com atenção. A vida continuou sempre igual, rasgos na monotonia apareciam e desapareciam à velocidade do passar dos minutos, na lenta e persistente viagem dos ponteiros do relógio. E vários dias se passaram, algumas chuvadas caíram e as conversas saudosas sobre o Verão começaram a rarear cada vez mais. Já era Outono, e as pessoas habituaram-se a ele. Até o Sol passou a ser uma memória e o calor algo irreal de quem já ninguém se lembrava, acredito que as praias estavam vazias, acredito que os parques onde à semanas se faziam piqueniques ao fim de semana também estavam vazios, mas tal como o resto da multidão anónima, também eu não lá ia, e esses locais já não passavam de lembranças difusas.
Era um dia de chuva, miúda, chata, todos se sentiam deprimidos como o tempo, as conversas trocavam-se de um modo maquinal, desinteressante, as palavras jorravam sem nenhuma emoção, como se todos fossemos máquinas com as baterias perto de se findarem, para enfim apodrecermos inertes e esquecidos. Sai do escritório para ir beber um café na pastelaria em frente, como tantas vezes fazia, algumas vezes pelo prazer de sair, pela necessidade da pausa, hoje apenas fui por ir, talvez uma ténue esperança de injectar um pouco de vida em mim, ajudado pela cafeína, afastando-me daquele ambiente clautrofóbico. Sentei-me ao balcão e pedi um café, a empregada colocou-me a chávena fumegante diante de mim e sorvi calmamente o café. Olhava o pacote de açucar vazio, lia desinteressadamente o que estava escrito e senti sentarem-se a meu lado, olhei para me arrancar da monotonia e via… novamente a rapariga loura, vestida de negro, bela como sempre a vi. «Bom dia.» Disse-me ela com um sorriso. Respondi com as mesmas palavras, sei que denotei um nervosismo miudinho, mas o seu sorriso foi simpático, acalmou-me. A minha mente recriava um sem numero de frases interessantes, inteligentes, divertidas para lhe dizer, para meter conversa, para quebrar o gelo, mas os meus lábios recusavam-se a qualquer frase, não conseguia dizer nada, estava a olhar o pacote de açúcar a dançar nos meus dedos, gozando comigo do alto da sua insignificância, como que a dizer-me que eu era ainda mais insignificante. À medida que o meu desespero era maior olhava cada vez mais para ela, a loura de negro, ostentando um sorriso, serena, bela… ela pediu um café também, a empregada olhou para mim e deu-me a impressão que sorriu, acho que imaginei o sorriso, a loura pendeu levemente a cabeça, para coçar com a ponta do dedo, levemente, imperceptível, apenas o necessário para ficar com os olhos apontados na minha direcção, com o seu sorriso sereno, com o seu olhar cristalino a brilhar, com o meu corpo numa convulsão surda. A empregada colocou a chávena na sua frente, ela olhou em frente, sorrindo, serena na sua majestade, serena na sua beleza, sabendo-se desejada, sabendo-se admirada, sorrindo triunfalmente, serenamente triunfal. As minhas palavras inteligentes teimavam em não sair, não conseguia dizer nada, o suor frio nas minhas costas formava uma camada gélida que me dizia constantemente que nunca nenhuma palavra sairia da minha boca, que não conseguiria falar com a loura de negro, que tudo o que tinha em mim para sempre ficaria encerrado ai mesmo, em mim. Tentava ganhar coragem, ganhar a força que sabia que tinha algures dentro de mim, talvez perdida, talvez à espera de ser acordada, mas sabia que tinha dentro de mim, tinha que ter, toda a gente a tinha, por isso, também eu teria que a ter, também eu teria que conseguir dizer as palavras que a minha mente gritava no mais gélido silêncio de mim. Olhei corajoso na direcção da loura de negro dos olhos azuis. Abri a boca na maior convicção, na maior convicção que consegui fingir a mim mesmo. Virei-me para a empregada e perguntei o preço. Talvez apercebendo-se da luta que travava dentro de mim, a empregada respondeu do modo mais cruel que conseguiu, “É o mesmo preço de sempre.”. Cruel resposta que me remeteu para a minha triste insignificância, dei-lhe a moeda que já sabia a partida que teria que lhe dar e sai derrotado do café, dirigi-me para o escritório que era meu, onde não teria que travar batalhas das quais sairia derrotado à partida, e chorei silenciosamente até à hora marcada, a hora em que dirigi o meu cadáver para a casa que me abrigaria até ao dia seguinte.


Ao fim de uma semana tudo não passava de uma triste memória. Convenci-me que apenas iria falar com ela meia dúzia de palavras inócuas, que daria uma ideia banal da minha pessoa, que apenas daria a impressão que era um pobre desgraçado solteiro tentando um engate na pastelaria em frente ao escritório onde trabalhava. Claro que ela, bela como era, como sabia que era, não cairia assim na conversa de qualquer um, como mulher que era, bela como era, como sabia que era, divertia-se com as palavras ridículas, com as conversas metidas a pressão que todos os homens tentavam com ela. Eu seria apenas mais um a quem ela criaria a ideia da possibilidade do que nunca aconteceria, ela olharia os meus olhos, veria a chama que prometia incendiar-me o corpo, incentivaria essa mesma chama, até ao ponto em que deitaria um simples copo de água sobre uma labareda que prometia um incêndio. Reduziria o fogo a cinza fumegante. Sairia triunfante ante o seu próprio poder. E eu ficaria reduzido a um nada. Convenci-me que o seu poder ficou adormecido na promessa do que nunca foi. E acreditei.
A medida que o Outono tomava conta das ruas e das pessoas, a languidez dos dias cinzentos eram cada vez mais confortáveis. As vezes percorria as ruas durante a hora do almoço e olhava as caras pálidas das pessoas, fumando cigarros cujo fumo se elevava no ar frio, perdendo-me na multidão, anulando-me na multidão. A memoria da loura de negro por vezes assaltava-me quando via uma cabeça mais alourada, tinha uma secreta esperança que ao cruzar-me com a cabeça olharia os olhos da minha deusa silenciosa, mas de cada vez que sentia essa ténue esperança, esta era imediatamente despedaçada ao olhar olhos estranhos, sem sorrisos provocadores em lábios que murmuravam bom dia. Nessa altura a minha mente vogava para aquele dia em que ela estava a minha frente e relembrava novamente a minha derrota e voltava a dizer a mim mesmo que foi pelo melhor, e por isso o melhor era esquecer essa miragem da loura de negro. Fazia contas mentais: a quanto tempo tinha sido esse dia? Os dias confundiam-se todos na chuva e nas nuvens, nos passos que ecoavam nas ruas molhadas, no som do vento frio… talvez um mês, talvez já quase dois. Não o sabia já ao certo, talvez até já fosse mais, os dias eram todos iguais. Tanto tempo perdido. Tantos dias sem memória. Tantos dias desperdiçados…
Num dia igual a todos os outros entrei na pastelaria e pedi o café. Lá fora a chuva caía miúda, as vozes da multidão ecoavam nas paredes da pastelaria vazia, o som do moinho tomou conta de tudo, e finalmente o silêncio venceu. A empregada, talvez aborrecida, meteu conversa comigo, eu respondi, sim, já fazia frio. Acendi um cigarro e fumei no conforto do silêncio, olhando o fumo elevar-se lânguido no ar parado da pastelaria. A empregada insistiu na conversa, se calhar já à muito tempo que ninguém entrava e se sentava ali com ela, devia de precisar conversar com alguém, olhei nos seus olhos com um sorriso, para criar uma ligação entre nós, mostrar-lhe que poderia falar comigo, tinha baixado a minha distancia, e as suas palavras alarmaram-me. Sim, afinal já é Inverno, o Outono acabou, tudo avança e eu nem dou pelo tempo que passa.

Posted by almahperditae at julho 17, 2006 08:29 PM
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