No tempo da minha infância,
Os dias eram semanas,
As semanas meses,
Os meses anos,
Um ano era uma vida…
No tempo da minha infância,
Cada dia uma epopeia:
Os socos trocados
Com outros miúdos;
As pedras voando,
Sem destino e certeiras;
O ultimo grito do dia,
Na debandada a chinelos…
Éramos reis num trono de lama,
Em batalhas ruidosas e alegres,
E orávamos em tréguas, partilhadas,
Numa bola no descampado,
Entre balizas de pedra e ar,
Limitadas pela imaginação.
No tempo da minha infância,
Lembro-me que a idade era algo mágico:
Um rapaz com poucos meses mais que eu,
Já tinha nas cicatrizes por desaparecer
E no ar superior da cara sem um sorriso,
O peso dos anos.
E eu olhava-o com uma certa admiração,
Invejando o cabelo desgrenhado,
Que já tinha visto muito mais vento
Que o meu inocente cabelo desgrenhado.
No tempo da minha infância,
Invejava aquele rapaz vivido.
Nas manchas de lama da camisola,
Havia um grito de liberdade
Sufocado no silêncio de lugares estranhos.
Diziam em surdina, com medo que ele ouvisse,
Que aquela lama que secava na sua camisola,
Tinha sido conquistada no pátio da casa velha,
Aquela casa enorme e assustadora,
Com muros respeitosos do peso dos anos…
(Andavam lá fantasmas nas noites de lua cheia!)
Diziam em surdina, com admiração e excitação,
Que ele subia pelo muro como um macaco,
Num sitio secreto, só ele sabia onde era.
Mas já o tinham visto entrar no beco,
Aquele que ficava ao lado da casa,
Abandonado ás silvas entre o muro e o prédio do lado.
No tempo da minha infância,
Aquela casa era mistério encarnado pedra,
O vulto desenhado a medo
Nas noites sem escola no dia seguinte.
Uma massa imensa de negro,
Espreitando além do muro,
Fronteira de medo sem desafio.
Silêncio de um nada inatingível,
Desenhando fronteiras e limites,
Alem do mundo descoberto a sangue.
No tempo da minha infância,
Num dia difuso de silêncio,
Murmurou-se palavras pesadas,
Palavras que metiam medo,
Palavras que não conhecia-mos.
As mães sussurraram-nos medo
Falaram no miúdo mais velho,
Na casa assombrada, abraçaram-nos…
Havia no seu tom uma novidade,
Um respeito novo desconhecido,
E durante vários dias,
Talvez vários anos,
Talvez um Verão,
Uma sombra desconhecida,
Um peso invisível,
Acompanhou a leveza dos dias de Verão…
No tempo da minha infância,
As memórias eram conquistas,
Partilhadas e aumentadas,
No desafio de crescer.
No tempo da minha infância,
Não me sentava a olhar,
Não sabia que havia Passado,
Tudo era sangue e vento,
Tudo era o que foi,
Tudo seria o que era,
Futuro,,,
Um desejo do Presente.
Hoje…
Sento-me a olhar do café,
A demolição da casa velha.
Recordo o tempo da minha infância,
E tudo são sombras,
E tudo são vultos…
Mas recordo o Jorge,
Com a clareza de agora saber…
Recordo o Jorge…
O puto que morreu,
Vitima de uma queda,
Na casa que agora cai…
fantástico... :)
sempre fantastico
Posted by: nelson at agosto 18, 2006 01:39 AMObrigado aos dois :) fantástico??? Uau... isso é um bocado forte não?
(e aproveito para dizer, antes que comecem a pensar em coisas más, que o "Jorge" foi inventado mais ou menos, apesar de ser tudo relativamente verdadeiro, a casa ter existido, e até em parte o Jorge, nunca ninguem morreu dentro da casa, que por acaso já foi demolida a uns 5 anos. Mas no outro dia estava a falar com um amigo, e fiquei nostalgico dos velhos tempos aqui nesta pequena aldeia...)
Posted by: Almah Perditae at agosto 18, 2006 08:27 PMseja forte... não se criticam opiniões! :P
Posted by: impressaodigital at agosto 19, 2006 08:49 PMProntos... je ferme ma bouche...
Posted by: Almah Perditae at agosto 19, 2006 09:13 PMem francês...muito bem... eu não tenho dicionário para te responder na mesma lingua. :)
Usaste a lingua que melhor sabes usar... Por mim tudo bem :) Eu ponho-me a inventar... Nunca mais meto na cabeça que não falo frances lol Está tudo mal escrito, mas alguem que saiba se encarregará de me insultar lol