O Sr. Acácio da mercearia morreu. No pequeno bairro em que viveu durante 43 anos a notícia foi recebida com pesar. Durante todo o dia recordou-se nas lojas vizinhas da sua mercearia o Sr. Acácio. Sempre simpático, falador, bonacheirão e sorridente, um sorriso sincero e jovial de dentes podres e bochechas rubras.
No talho, a Sra. Manuela recordou quando três dias antes o Sr. Acácio lhe disse na mercearia, com o ruído de fundo dos miúdos a jogarem à bola em frente da sua porta, “Ainda me lembro dos pais destes cachopos jogarem aqui à bola quando tinham a idade deles. É a vida Sra. Manuela, nunca pára, está sempre a andar para a frente, uns nascem outros morrem, é assim… não tarda muito vamos para debaixo da terra.”. A Sra. Manuela não contou a gargalhada que o Sr. Acácio deu ao terminar a frase, antes abanou a cabeça e disse pesarosa “Coitado. Era já a Morte a chamá-lo.”.
Na frutaria, mesmo defronte da mercearia do Sr. Acácio, o Ti Carlos, dois anos mais velho que o Sr. Acácio, recordava triste e assustado, como se aquela morte fosse o prenuncio da sua, de quando a sua loja estava vazia e olhava pela montra, vendo à porta da sua mercearia o Sr. Acácio com as mãos nos bolsos e um ar imponente, como que fazendo peito mas apenas realçando a barriga, a olhar a rua. Vinha até a porta da sua frutaria e trocava saudações e dois dedos de conversa através da rua. Não raras vezes, cada um fechava a porta do seu estabelecimento, colocava na porta um cartão gasto com o aviso “Volto Já” e iam lado a lado beber um copo de tinto até à taberna. “Agora nunca mais” dizia o Ti Carlos profundamente abatido, e concluía, “Coitado” como se aquele coitado fosse também para si.
Na taberna ao fundo da rua, local de peregrinação do Sr. Acácio, a Ti São (quantos trocadilhos jocosos não se recorda ela de o Sr. Acácio fazer com o seu nome) lembrava pesarosa a tristeza de o Sr. Acácio nunca ter voltado à terra que recordava com saudade. O Joaquim, marido da Ti São, lembrou-se de uma conversa tida com ele certo dia sobre isso, e sentado à mesa, de pernas abertas viradas para a porta, lembrou as sábias palavras do Sr. Acácio, “Sabes Joaquim? Até gostava de ver como está a minha linda terrinha, mas eu vejo o que mudou o bairro desde que cá estou, e ás vezes faz-me confusão a diferença, e assisti á mudança. Se fosse à terra já não ia conhecer nada, era um choque de certeza, prefiro recordá-la como era.”. O Manel ao ouvir aquelas palavras de sabedoria disse que o velho Acácio era um filósofo, e todos os homens concordaram com a cabeça, em respeito e pesar. O Joaquim levantou-se enérgico e disse a plenos pulmões “Mulher, enche os copos destes amigos para fazer-mos um brinde ao Acácio.”, virou-se para os clientes e tranquilizou os amigos, era por conta da casa. “Ao Acácio!” saudaram os convivas e beberam o copo de um trago, soltando ah's de satisfação pelo copo e tristeza pelo velho amigo. “Coitado…” murmurou entre dentes o Joaquim olhando o copo nas mãos, e todos os amigos baixaram os olhos.
Na retrosaria da Sra. Antonieta, várias mulheres falavam do Sr. Acácio. Lembravam a sua dedicação á mercearia e ao bairro, desde que para ali foi viver nunca mais de lá saiu. Ali casou, teve filhos, e morreu. Em 43 anos fechou a mercearia apenas 5 dias; no dia que casou, no dia que a mulher morreu, no dia que o mais novo morreu com a droga, e no dia que os filhos casaram. A Sra. Piedade lembrou que o Sr. Acácio foi um sofredor, passou por muito na vida coitado, mas nunca perdeu aquele sorriso na cara. A D. Rosa, velha viúva azeda por nunca ter tido filhos, afiançou em voz alta que era por andar sempre bêbado. Iradas, as mulheres remeteram-se ao silêncio, mesmo sendo verdade, dos mortos não se fala mal, e para evitar tensões maiores na sua retrosaria, a Sra. Antonieta suspirou um “Coitado, já lá está, na terra da verdade.” reconciliador, e todas as mulheres abanaram a cabeça em concordância.
No dia seguinte o bairro acordou entristecido, era o funeral do Sr. Acácio. Os homens vestidos com os fatos de Domingo e gravata preta, as mulheres com os vestidos apropriados para as cerimónias fúnebres, todos entravam na morgue, aproximavam-se dos filhos do Sr. Acácio, o Pedro, o mais velho, e a Teresa, o orgulho do Sr. Acácio, cujo maior orgulho na vida foi ter conseguido dar estudos à sua menina, hoje doutora formada e com um emprego de responsabilidade na Câmara, embora ninguém soubesse ao certo o que fazia, mas sempre ajudava as pessoas lá do bairro quando precisavam de tratar de papeladas na Câmara. Ora mais hesitantes e tímidos, ora mais expansivos e com grandes braços no ar e caras de choro, todos deram os pêsames aos filhos do Sr. Acácio, grandes abraços e vozes cavas e profundas pronunciavam-se com as frases devidas, e os filhos do Sr. Acácio lá iam agradecendo a presença, pesarosos e tristes. As mulheres, resquícios das carpideiras de outrora, sentavam-se respeitosas nas cadeiras em torno do caixão, enquanto os homens iam para a rua, formando grupos temáticos. Num grupo de trintões que recordavam o Sr. Acácio à porta da mercearia a vociferar quando uma bola traiçoeira lhe partia um vidro da montra ou lhe entrava pela porta, falava-se de futebol e de quem estava em melhor posição para ganhar o campeonato. Num outro grupo, sexagenários copinchas do Sr. Acácio na taberna do bairro, recordavam as frases filosóficas que o velho Acácio cuspia entre copos de tinto em pé ao balcão com as mãos nos bolsos e uma pose de velho sábio. Em torno do Vítor, alguns homens ouviam-no falar das obras que queria fazer lá em casa. Num grupo mais afastado, os velhos amigos do Zé matavam saudades do amigo, que tinha casado e ido para fora e só voltava ao bairro quando um funeral, um casamento ou um baptizado pedia a sua presença. No café próximo da morgue bebia-se cerveja em memória do Sr. Acácio. E à medida que o tempo passava, os grupos iam-se multiplicando, diminuindo, convulsionando e mudando consoante quem chegava e quem partia para ir ao café ou ir à casa de banho, ou simplesmente sair um bocado dali e apanhar ar.
Pouco depois do almoço, dois empregados da funerária fecharam o caixão e levaram-no para a igreja, friamente e imunes ao espectáculo da morte. Algumas pessoas não conseguiram deixar de pensar que com o hábito até a morte se torna tolerável. Lentamente toda a gente se dirigiu para a igreja, as cabeças pendentes e respeitosas erguiam-se e procuravam o melhor sitio para se sentarem, ou o melhor canto para se encostarem e assistir à missa.
O padre disse palavras bonitas. Algumas pessoas ouviam de cabeças baixas, outras não prestaram muita atenção, mas todas elas sentiam aquela morte, não tanto pelo Sr. Acácio, mas antes pelo lugar ocupado pelo Sr. Acácio. Não foi apenas o Sr. Acácio que morreu naquele dia, não era o Sr. Acácio que era chorado, o que era chorado era o lugar ocupado pelo Sr. Acácio no mundo de cada uma daquelas pessoas. Com a partida do Sr. Acácio, era deixado um lugar vazio que ninguém poderia ocupar, era o lugar do Sr. Acácio. E dependendo do tamanho desse lugar no mundo de cada uma daquelas pessoas dependia a dor e a tristeza de cada uma daquelas pessoas. Ninguém sentia a partida do Sr. Acácio, o Sr. Acácio tinha morrido, o que sentiam era a partida do Sr. Acácio do seu pequeno mundo, e o que choravam era o vazio deixado no seu pequeno mundo pelo Sr. Acácio.
O cortejo fúnebre partiu na direcção do cemitério. O carro funerário avançava lentamente pelas ruas, em sinal de respeito as lojas encostavam as portas ao passar o cortejo, talvez com medo de a Morte entrar. Dentro das lojas pessoas assomavam ás montras e ás janelas e comentavam “Mais um que se foi…”, como se a Morte estivesse perto delas e aquele desabafo fosse proferido por medo, para afastar o terrível Anjo Negro. Atrás do carro funerário os filhos do Sr. Acácio e alguns amigos mais chegados, todos de olhos no chão, com lágrimas sinceras e secas no olhar, braços dados como para se ampararem através daquele terrível dia. Junto, por respeito pela dor, caminhavam alguns amigos do Sr. Acácio, tristes e de cabeça baixa, caminhavam em silêncio, chocados com aquela perda. Logo atrás alguns curiosos, olhavam para a frente o cortejo como um espectáculo, sentiam aquela partida, sentiam já a falta do Sr. Acácio nos dias que sobravam da sua Vida, mas o fascínio por aquele espectáculo era por demais evidente. Queriam recordar o funeral do Sr. Acácio como a ultima memória dele. Longe da multidão mais emocionada, pessoas demasiado chocadas com aquele espectáculo, deixavam-se ficar para trás, para o espectáculo lá mais á frente não ser uma constante a agredir a sua sensibilidade. Caminhavam de um modo medroso, era claro que o funeral os impressionava, talvez recordassem as gargalhadas do Sr. Acácio e a sua filosofia proferida em voz alta e de mãos nos bolsos. A fechar o cortejo alguns jovens, homens já feitos, recordavam o Sr. Acácio como o velho simpático da mercearia, não beberam copos de tinto com ela na taberna, não sentiam muito a sua falta, apenas lá estavam por respeito, porque já eram homens feitos e tinham que ir á ultima despedida do Sr. Acácio. Para passar o tempo naquela tarde, caminhavam juntos, a fechar o cortejo, a rirem-se e a contar anedotas. Lá na frente ninguém lhes levaria a mal, ninguém os veria.
Ao chegar à praça em frente do velho portão de ferro do cemitério, o cortejo aglomerou-se em torno do carro, os empregados da funerária gritavam alto com algumas pessoas e pediam espaço para abrir a porta do carro e colocar o caixão em cima da charrete. Rapidamente, por força do hábito, puxaram o caixão e encaminharam-se para a sepultura já aberta. O cortejo seguiu a charrete que chiava e deixava rastos no pó. No cemitério reinava o silêncio.
Junto á cova o cortejo parou. O padre esperou que os empregados da funerária abrissem o caixão para a última oração em memória do Sr. Acácio. O silêncio só era cortado pela leve brisa nos ramos dos ciprestes. A voz do padre ecoou, algumas lágrimas fizeram-se ouvir, o momento era solene, o silêncio agressivo. Fecharam o caixão e os homens da funerária pegaram o caixão em peso para o depositar na eternidade do pó.
E foi quando…
Um grito ecoou. Terrível! Todos os presentes se sobressaltaram. Outros gritos ecoaram. Mulheres desmaiaram. Os empregados deixaram cair o caixão. Um eco de madeira troou. O corpo do Sr. Acácio no chão, no pó. Gritos. Gritos. Gritos… Que cenário terrível! Ninguém sabia o que se passava. Foi quando o impossível aconteceu…
Do pó, da terra, o Sr. Acácio levantou-se e a sua voz ecoou que nem um trovão: “Mas que merda é esta, caralho?”. Toda a gente se alterou: junto ao espectáculo, os filhos e os amigos mais chegados exibiam sorrisos de êxtase, incrédulos; junto a si os amigos do Sr. Acácio sorriam, olhando em volta, tentando perceber o que se passava; atrás deles uma multidão curiosa convulsionava-se tentando perceber o que se passava, não queriam perder aquele espectáculo único; logo atrás algumas pessoas estavam como que aliviadas por o dia ter tido uma reviravolta feliz; e atrás de si, sem ninguém os ver, algumas pessoas estavam em pânico, sem perceber o que raio se tinha passado. Afinal o que se tinha passado?
Nunca ninguém soube dizer o que se tinha passado. A verdade é que o Sr. Acácio não morreu. Voltou para casa e durante vários dias só se falou daquele caso extraordinário lá no bairro. O Sr. Acácio não voltou a abrir a mercearia, assustada com aquele caso a Teresa quis levar o seu pai para junto de si, e este lá acabou por ir. Deu-se conta que a sua vida tinha sido apenas o bairro e a mercearia e resolveu gozar o resto do tempo que lhe tinha sido dado. Passeou e brincou muito com a Marianita, a sua netinha de cinco anos, filha da Teresa. Visitou muitas vezes o Pedro, e ensinou tudo o que sabia ao Joel e ao Bruno, os seus netos mais velhos. Foi á sua terra, perdeu o medo do choque, gostou de lá ir. Visitar a sua antiga rua, completamente diferente do que se lembrava, foi um momento importante da sua vida. As vezes ia ao bairro, visitava a taberna e matava saudades dos seus amigos. Era o velho Acácio, mas um melhor Acácio, notava-se que estava feliz. Passados meses foi ao funeral do Ti Carlos. Chorou a perda do seu velho amigo. Passado um ano a noticia esperada chegou ao bairro. O Sr. Acácio tinha morrido. Nesse dia houve conversas sobre o caso extraordinário do funeral do Sr. Acácio. Muitas pessoas diziam emocionadas que o Sr. Acácio ainda não era desta que se ia. Com sorrisos ternurentos diziam que o iam propor ao livro do Guiness como o homem mais teimoso do mundo, nem a morte lhe batia o pé. Com sinceridade diziam que o ultimo ano de vida do Sr. Acácio tinha sido o seu ano mais feliz. Estavam contentes por o velho amigo ter ainda conseguido ser feliz. No dia seguinte uma multidão maior que no ano anterior quis acompanhar o funeral do Sr. Acácio, no fundo toda a gente tinha esperança de voltar a ver o Sr. Acácio erguer-se da morte.
Mas o Sr. Acácio foi enterrado. Todo o bairro em peso voltou para casa e durante vários dias o Sr. Acácio foi recordado com saudade. Lembravam o seu primeiro funeral, a sua simpatia, os seus ditos cheios de sabedoria, e principalmente, diziam do Sr. Acácio, que para viver teve que primeiro morrer.
mas o que lhe falta?!
está muito interessante. eu adorei.
a hipotese de reviver é algo a que todos deveriamos ter oportunidade... fica tanto por fazer ou para fazer melhor... é... temos que saber respeitar os segundos da vida, sãoa a contagem descrescente para a morte.
Muito bem, meu caro.
Falta-lhe o ritmo :( o ritmo está todo fodido, mas não consegui fazer melhor :( As passagens entre os paragrafos, há mudanças drasticas nos ritmos... enfim... Eu desisti e deixei como estava, pq senão tinha que meter uns paragrafos maiores, outros mais curtos e ai estragava algumas ideias... Ficou assim lol
Posted by: Almah Perditae at novembro 22, 2006 04:53 PMficou assim e ficou bem...
Posted by: impressaodigital at novembro 25, 2006 05:11 PMObrigado :)
Posted by: Almah Perditae at novembro 25, 2006 09:20 PM