Nos dias em que o tempo se arrasta em lânguidas horas de segundos sempre iguais, olho estático o que fui, e penso se alguma vez o cheguei a ser. No espelho o reflexo devolve-me cicatrizes de uma personagem que criei para as minhas memórias, e penso se alguma vez fui eu que senti na pele as feridas em sangue e fogo que agora já são cicatrizes.
Não… não fui eu. Eu sou aquele que tem cicatrizes, que as olha como se fossem conquistas de um tempo que recordo como meu, mas não sou o das feridas, o da vida. Sou só o das cicatrizes. Aquela personagem que recordo com saudade dos tempos mortos em que as cicatrizes ainda eram sangue a jorrar na pele virgem, não era este Eu que olha o espelho com pele já cicatrizada. Não. Não somos os mesmos. Somos dois Eus de um mesmo vazio: o dele o vazio de cicatrizes, de sangue concreto no tempo sentido, eu o vazio de sangue, de cicatrizes mortas recordadas em sangue vivo. Sou o vazio de nós dois. Um cadáver que apodrece num tumulo, a ilusão de memorias que faço minhas, na lucidez de saber que aquele não fui eu. Eu estou aqui, preso no sangue do meu corpo, na pele cicatrizada de uma vida que não vivi. Eu sou o que sonha com a vida que não sinto, perdido num tempo de toque quente de sangue na pele.
Eu sou a memória do que foi. O concreto fluir do tempo sem vida, o olhar para o que não é e fazer disso o que quero ser. Mas já não sou aquele da vida em que o tempo não existe, esse já não sou eu. Eu já não sou aquele que rasgava a pele sem sentir o sangue a escorrer quente na pele queimada, já não tenho em mim a vida que sinto nas memórias que quero ter. Perdia sem dar pela sua morte. Acordei um dia e já era cicatrizes dum tempo que não dei por ele. Olhei o espelho e vi cicatrizes concretas em carne de sal, arrefecendo o tempo negro de eu já não ser eu.
Aquele era um outro, tinha outras emoções, outras paixões e misérias que já não sinto em mim. Somos dois indivíduos diferentes, com duas almas diferentes. Eu já não sou aquele do tempo em que o tempo não tinha tempo. Eu sou o cadáver de uma vida que não é minha.
fuma uns paivas que isso passa hihih
visita-m se kizeres ;)
filipa_pi.blogs.sapo.pt
Geralmente quando fumo uns paivas é k me vem a inspiração para escrever estas cenas lol E se não escrevo na altura escrevo no dia seguinte lol Este texto por ex foi escrito com a divina inspiração de uns bons paivas e boa musica, por isso... não é com os paivas que passa lol
Posted by: Almah Perditae at maio 3, 2007 10:26 PM