agosto 14, 2007

Noite

Nos passos imprecisos da noite, o meu vulto arrastasse entre sombras e silêncio. Percorro mentalmente paisagens que outrora vi, feitas de Sol e verde, e sinto que aqui entre o negro e o frio das vielas sujas e escuras me sinto mais aconchegado, como se a solidão que me cerca me protegesse de mim mesmo. Aqui não sou nada, sou apenas uma sombra que se arrasta em silêncio, percorrendo gritos silenciados na minha mente derrotada. No calor de mil corpos esquecidos, relembro risos que fingi a mim mesmo, e enquanto o fumo do cigarro me envolve, olho a lua, pairando alva e pura sobre os telhados negros de prédios fetos de castelos e sonhos adiados. No seu ventre há talvez risos fingidos, mentiras que se vivem num desespero latente, talvez até haja felicidade verdadeira, daquela feita de sonhos por cumprir que se vivem como se sonhos não passassem de sombras difusas de palavras ingénuas trocadas entre calores e risos reais. Que importa? É uma realidade tão longe de mim, da brisa cortante da noite, dos passos que fogem de mim cavalgando no silêncio, da Lua que sorri prata sobre mim, das sombras dançando nas paredes vazias...
Porque me sinto tão vazio? À tanto tempo que não consigo escrever nada. Sinto um impulso, talvez um grito ou uma lágrima, talvez um sorriso... Que mentira! A verdade é que não sinto nada. Fingo que sinto uma qualquer necessidade para escrever, mas a verdade é que a sinto até ver apenas a folha em branco. Aí perco a vontade de a manchar, não me sinto digno de a sujar comigo, e deixo-a solitária. Abandono a vontade de escrever como abandono outra vontade qualquer, e percorro as ruas vazias, fumando, ouvindo o silêncio, entrando em qualquer lugar para beber um copo, mas tudo em volta está tão morto como eu. Busco nos meus passos perdidos um lugar para me encontrar talvez. Espera... Ouço um som estranho. É a Vida! Afinal existe ainda Vida na cidade que me esmaga... Não era disto que eu andava à procura? Finjo o meu sorriso mais sincero e entro com a confiança que não tenho. E ao sentir a Vida a entrar em mim regozijo. Não era isto que eu queria? Não... Tiro a máscara e abandono-a no chão enquanto viro as costas. Também não era isto que procurava. Mas então... Que busco eu? Porque anseio eu? Porque ando perdido à procura de algo que nem sei o que é? E quando a noite me abandona sozinho, com o último cigarro sento-me no silêncio e finalmente encontro a resposta. Procuro apenas o procurar. Nada mais que o andar perdido. Não quero nada senão o não querer nada. E sempre que desejo algo é até o ter, depois é nada. Quero o Impossível. É isso. Quero o Impossível, mas o Impossível não é possível, e quando o é deixa de ser Impossível... E largo o que tenho porque nada quero que seja meu...
E quando acabou o cigarro, levantei-me, caminhei para casa e sentei-me a escrever um pensamento que senti quando nada sentia. Abandono-o num grito mudo para o atirar ao vento. Para longe de mim... também já não o quero.

Posted by almahperditae at agosto 14, 2007 01:00 AM
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