outubro 15, 2007

Balada Do Medo

Enquanto sinto o frio tomar conta de mim, não consigo deixar de pensar... Foi já à tanto tempo que me abandonei, que não consigo deixar de pensar... Tive tudo quanto desejei. Perdi tudo isso, sem saber que o perdia. Havia sempre uma qualquer razão, o destino que me queria surpreender, pensava eu, e nunca percebi, que apenas me estava a perder... Envelheci. O tempo não me poupou, cada dia estava mais perto da Morte, e nunca o percebi... Um dia não era nada, era um periodo estanque entre o acordar e o deitar. E nesse nada me perdi... Agora, olho as sombras desenhadas no pó, sentindo o tempo tomar conta de mim, sem conseguir fugir, sentindo o frio da Morte penetrar nos meus sentidos, e não consigo fugir, estou preso nas memórias do que não tive, redesenhando toda uma Vida que perdi, e pergunto ao silêncio que me tomou, como hei-de fugir?
Estático, sentindo o vento penetrar no casaco gasto, vejo passar por mim jovens como eu fui, ainda sorriem tanto, e não consigo deixar de pensar que também eles se vão perder...
Nas brumas das memórias que perdi, procuro uma centelha de esperança, pegar esse momento e repeti-lo à eternidade, sentindo que vivi. Mas não me lembro de nada... Todos os dias são iguais, e todos os dias são vazios, será que não vivi? Será que agora que não consigo correr atrás da vida, é que percebi que sempre estive morto? É o medo a tomar conta de mim, esse gume frio que me desespera, o medo de tudo ter perdido, e a tristeza de agora o perceber... A minha vida não existiu. Sempre estive morto... (E o frio que não me larga os ossos...) Este frio... Este medo da Morte, que sinto agora, que a Vida se perdeu enfim... A certeza de que não vivi...

Posted by almahperditae at outubro 15, 2007 04:07 AM
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