outubro 22, 2007

Patrick Suskind - O Perfume

Poderão quinze milhões de pessoas estar erradas? Claro que podem, os fenómenos de massas geralmente deixam bastante a desejar, mas se há livro que merece toda a aura que o rodeia, e se há livro que merece ser vendido aos milhões, e aparecer na lista dos favoritos de tanta gente, esse livro é “O Perfume (história de um assassino)” de Patrick Suskind. Haverá alguém que ainda não tenha lido este livro? Haverá alguém que nunca tenha ouvido falar desta obra-prima? Haverá decerto, mas uma rápida busca resolverá esse problema, face à avalanche de comentários, de criticas que há sobre este livro na net... E eu recentemente fiz isso, fiz uma pesquisa sobre este livro, e acho que falta ainda uma... Mas não, não vou dizer o que eu acho e o que eu sinto do livro, vou ser bastante mais superficial. Vou apenas tentar explanar quais são para mim os dois pormenores que fazem deste livro uma obra genial, fenomenal e única. Porque acreditem que este livro é único, não há nenhum como ele... embora não seja o meu livro favorito (esse lugar entrego-o a “A Caixa Negra” do grande escritor israelita Amos Oz) a verdade é que admito sem a mínima hesitação que estou errado. “O Perfume” bate aos pontos essa minha preferência, e de um modo racional acho que este poderá ser considerado um dos livros do séc. XX (e já agora... de sempre). Mas... o que tem este livro, que faz com que quem o leia fique imediatamente cativado pela genialidade desta obra? Alguém já alguma vez ouviu alguém dizer que não gostou deste livro? Sejamos racionais... “Os Maias” de Eça de Queiroz é provavelmente o melhor romance jamais escrito, e apesar disso o que não falta neste país é gente a falar mal desse livro e a dizer que o detesta. Mas nunca ouvi ninguém falar mal desta obra de Patrick Suskind, antes pelo contrário, quem o lê imediatamente o adiciona à lista dos favoritos (ou na generalidade dos casos, torna-se imediatamente o livro favorito) e isto por duas razões... Não muito simples, aliás, por duas razões únicas, que provavelmente não se encontra em mais nenhum livro...
A primeira e mais simples de descrever, é a originalidade do livro. Este talvez seja o único cuja descrição das personagens e dos lugares e de tudo o que rodeia a história não é uma descrição visual, mas sim uma descrição olfactiva. E esse o início da grande genialidade do livro... Com devem saber, o olfacto é o sentido mais primário do ser humano, o mais animal e irracional. Mesmo sem o sabermos, sem nos darmos conta, é através do olfacto que nos relacionamos com as outras pessoas, é através do olfacto que nascem e crescem todas as nossas emoções, é através do olfacto que a nossa memória funciona, e todo o nosso universo humano se movimenta. Inconscientemente, irracionalmente, livremente…
E este é o único livro que eu conheço que se movimenta nesse universo irracional e puro. E por isso o livro tem esse poder de nos hipnotizar irracionalmente, porque ao nos descrever os odores, a nossa memória imediatamente é activada e a nossa imaginação se deixa embrenhar pelas situações, pela envolvência da história…
Mas a segunda genialidade do livro é ainda mais… genial!
Ao nos activar a memória olfactiva (a nossa memória mais primária e animal), ao nos envolver de um modo tão irracional, o livro transpõe-nos imediatamente para a história, para as situações e principalmente para as emoções descritas. E aí… Ao atingir o nosso inconsciente, já não é a história da personagem que nós acompanhamos, é a nossa própria personagem, o nosso próprio Eu, somos nós que estamos ali descritos… Estamos a ler-nos a nós! Por essa razão o livro nos atinge de uma forma tão visceral, intensa e pessoal. Por essa razão, por mais que procurem interpretações e opiniões sobre o livro, nunca encontram duas opiniões iguais, todas elas são diferentes, porque ninguém descreve a personagem principal, cada opinião é a descrição do inconsciente de quem lê o livro, o seu lado mais puro, irracional e verdadeiro…
Parece que há agora um filme baseado no livro… Eu não vi, mas este é um daqueles livros impossíveis de transpor para filme. Não sou da opinião de que “os filmes são sempre piores que os livros” (“Senhor dos Anéis” e “2001 – Odisseia no Espaço” são apenas dois exemplos de que os filmes podem ser melhores que os livros), mas este filme… Mesmo sem ver, sei à partida que é impossível ser melhor que esta obra-prima da Literatura.

Posted by almahperditae at outubro 22, 2007 08:02 PM
Comments

Acabei-o de ler! Um dos melhores livros q ja' li ate' hoje. :D Adorei o post :)

Posted by: Miguel at dezembro 3, 2007 10:08 PM

Uma obra-prima intemporal... Sem mais palavras...

Posted by: Almah Perditae at dezembro 4, 2007 12:02 AM