É verdade, sem engano, certo e muito verdadeiro:
O que está embaixo é como o que está em cima
e o que está em cima é como o que está embaixo;
por tais coisas se fazem os milagres de uma coisa só.
Assim como todas as coisas são e procedem do Uno,
pela mediação do Uno,
assim todas as coisas nasceram desta coisa única, por adaptação.
O Sol é seu pai, a Lua sua mãe.
O Vento trouxe-a em seu ventre.
A Terra o alimenta e é o seu receptáculo.
O Pai de tudo, o Telesma universal, está aqui.
A sua força permanece inteira quando se converte em terra.
Separarás a terra do fogo, o sutil do espesso, suavemente, com grande habilidade.
Sobe da Terra ao Céu e desce novamente à Terra
e recebe a força das coisas superiores e das coisas inferiores.
Por este meio obterás a glória do mundo e toda obscuridade se afastará de ti.
É a força forte de toda força,
pois vencerá toda coisa sutil e penetrará toda coisa sólida.
Assim o mundo foi criado;
disso sairão adaptações admiráveis cujo meio é dado aqui.
Por isso me chamam Hermes Trimegisto,
porque possuo as três partes da sabedoria do mundo inteiro.
O que eu disse sobre a operação do Sol está completo.
(Hermes Trimegisto)

O conceito de Diabo pode ser definido como um ser sobrenatural que se caracteriza por representar a própria personificação do Mal: seu mito resume em si todo o problema do que hoje se denomina como Mal. Sendo uma força incontrolável e hostil, origem de todo o mal, é temido pelo Homem, que o considera um fenómeno dotado de poder enorme e perene, sentindo-se por ele constantemente ameaçado. Essa criatura pode, contudo, receber nomes variados, funções diversas e ter origens distintas, dependendo para isso, tão-somente da cultura à luz da qual se analisa o conceito.

Em muitos idiomas Diabo, Demónio e Satã são sinónimos da mesma realidade. Porém, é interessante notar que, embora as três palavras compartilhem hodiernamente da mesma acepção, nem sempre foi assim. Do vocábulo hebraico Satã, cuja raiz significa “opor”, “obstruir” ou “acusar”, surgiu a tradução grega diabolus, “caluniador”ou “acusador”. Só tempos mais tarde é que a palavra adquiriu o sentido de “adversário”, quando diabolus passou ao latim como diabolus.

Por sua vez, demónio, em grego daimónion, significava primeiramente deus, divindade, deus de categoria inferior; era um intermediário entre os deuses e os mortais. A expressão era utilizada também para designar a voz interior que fala ao homem, guia-o, aconselha-o, sem portanto qualquer significação pejorativa. Homero (século IX-VIII a.C.), chegou a empregar o termo muitas vezes conotando o próprio destino. Foi só posteriormente que daimonion, palavra derivada de daiomai, “dividir”, adquiriu o sentido de “espírito mau”. O Diabo é designado por inúmeros outros nomes dentre os quais, destacam-se: Satanás, Satã, Belzebu, Lúcifer, Príncipe das Trevas e Pai da Mentira. No Brasil, a superstição popular, com medo dos efeitos funestos possíveis apenas por pronunciar-lhe o nome, se lhe atribuiu diversos cognomes. Por esse motivo é também conhecido pelos apelidos de Coisa Ruim, Maligno, Rabudo, Tinhoso, Cão, Excomungado, Cramulhano, entre outros. No entanto, cada um dos termos correspondem apenas a sinónimos que, não obstante se refiram à mesma entidade, não constituem obviamente o próprio ser na sua essência. Embora os antigos gregos não lidassem com uma figura única que representasse unicamente a maldade do mundo, foram eles os primeiros a levantar a questão do mal em termos filosóficos. A mitologia grega estava repleta de deuses que eram em sua essência ambivalentes pois possuíam ao mesmo tempo tanto qualidades positivas, quanto qualidades negativas, não havendo, portanto, uma criatura única a quem pudesse ser atribuída toda a maldade do mundo.

Havia, contudo entre eles, um deus, Hades, que era considerado o senhor do mundo subterrâneo, e que presidia tudo que era sombrio. Senhor dos Infernos, reinava sobre os espíritos mortos que habitavam em seus domínios, terra das sombras. Entretanto, Hades tinha um outro cognome, Pluto, através do qual também simbolizava a fertilidade, porque como rei das profundezas, era também responsável pela produção de todos os minerais preciosos como ouro e prata acrescido do fato de que era sob suas ordens que as sementes ocultas sob a terra germinavam, dando origem às plantações e às colheitas. Hades ou Pluto, mantinha portanto, sua qualidade ambivalente pois era considerado tanto o deus da morte, quanto o deus da fertilidade. Dessa concepção, adveio provavelmente a associação do Diabo com a fertilidade e por conseguinte, com a sexualidade, incorporada posteriormente pelos cristãos, na construção de seu princípio do mal. Além disso, havia Pã, filho de Hermes, outra criatura da mitologia grega, um ser bizarro, extremamente cabeludo, semelhante a um bode, com chifres e patas fendidas, que e que simbolizava o desejo sexual desenfreado. Essa descrição iconográfica acrescida do fato do deus Pã estar ligado à tudo que se referia à selvajaria e a loucura sexual influenciou definitivamente a imagem atribuída posteriormente ao Diabo dos cristãos. Os textos medievais se referem ao Diabo como uma criatura peluda, dotada de chifres e patas, capaz de adquirir formas dos diversos animais que simbolizavam frequentemente a fertilidade como o asno, o porco, o lobo, o cão, o galo, e bode, esta última a mais comum. Da mesma forma que o branco é associado à Luz e ao Bem, o negro possui uma imensa gama de associações negativas e assustadoras, sendo invariavelmente associado ao mal. O preto é tido como a cor da noite, símbolo das trevas, onde os seres fantasmagóricos e informes têm as mais diversas actividades funestas. A religião hebraica contribuiu em muito para isto adoptando a ideia de que Satã como a personificação do lado escuro de Deus, o que demonstra que inicialmente para os hebreus, não havia um ser único, responsável exclusivamente pelo mal. Posteriormente, contudo, o povo hebreu, buscando uma nova teodicéia, dividiram seu Deus em duas partes, a primeira, contendo seu aspecto bom e a segunda, contendo o aspecto mau. O mal passou a ser considerado então como o resultado do pecado do homem, descrito no livro de Génesis, mais precisamente quando Adão e Eva desobedeceram ao Criador, comendo no Jardim do Éden do fruto proibido.

Foi somente à época do Novo Testamento, que a questão do Diabo foi trazida à luz com mais agudeza, passando o Diabo a ocupar uma posição de destaque tendo adquirido a função de contraparte do Cristo. Para os cristãos, o Diabo é o representante das forças do mal, em constante guerra com Deus, criador de todas as coisas, omnipotente, omnisciente, omnipresente e totalmente bom. No Novo Testamento, consolidaram-se vários conceitos já existentes do Diabo: é o chefe dos exércitos demoníacos, é o princípio do mal, é o não ser, é um anjo caído. Dentro da teodicéia cristã, o Diabo é centro da noite, que arde no mundo subterrâneo e cujo intuito primordial é o de privar-lhe da graça de Deus. Ainda segundo essa linha de raciocínio, a única forma do Homem escapar ao seu jugo é através do mistério da cruz, a cruz de Cristo que liberta os homens e restituindo-lhe a graça de Deus.

No Tarôt, o Diabo é a décima sexta carta, representado pelo deus Pã, considerado uma criatura lasciva e indecente. Habitava nas cavernas, que simbolicamente representa o lugar mais inatingível do inconsciente. Símbolo da escravidão que acomete todo aquele que é cegamente submisso aos instintos. No decorrer de um jogo, seu aparecimento indica também a necessidade do reconhecimento e consequentemente confrontação com tudo aquilo que é mais sombrio e destrutivo dentro de todo ser humano, a fim de tornar-se possível o desabrochar de uma personalidade mais integrada e consciente.
Simbolicamente, o Diabo representa o impulso que leva à desordem da consciência e seu subsequente enfraquecimento determinando a desintegração da personalidade. Como a antítese do Bem, é causador de uma tensão que somente será resolvida menos pela repressão, que só faz aumentar seus efeitos desintegradores que se manifestam através da dúvida, do ambivalente e do determinado, do que pelo seu reconhecimento, compreensão, integração e absorção.