novembro 10, 2006

O Funeral

O Sr. Acácio da mercearia morreu. No pequeno bairro em que viveu durante 43 anos a notícia foi recebida com pesar. Durante todo o dia recordou-se nas lojas vizinhas da sua mercearia o Sr. Acácio. Sempre simpático, falador, bonacheirão e sorridente, um sorriso sincero e jovial de dentes podres e bochechas rubras.
No talho, a Sra. Manuela recordou quando três dias antes o Sr. Acácio lhe disse na mercearia, com o ruído de fundo dos miúdos a jogarem à bola em frente da sua porta, “Ainda me lembro dos pais destes cachopos jogarem aqui à bola quando tinham a idade deles. É a vida Sra. Manuela, nunca pára, está sempre a andar para a frente, uns nascem outros morrem, é assim… não tarda muito vamos para debaixo da terra.”. A Sra. Manuela não contou a gargalhada que o Sr. Acácio deu ao terminar a frase, antes abanou a cabeça e disse pesarosa “Coitado. Era já a Morte a chamá-lo.”.
Na frutaria, mesmo defronte da mercearia do Sr. Acácio, o Ti Carlos, dois anos mais velho que o Sr. Acácio, recordava triste e assustado, como se aquela morte fosse o prenuncio da sua, de quando a sua loja estava vazia e olhava pela montra, vendo à porta da sua mercearia o Sr. Acácio com as mãos nos bolsos e um ar imponente, como que fazendo peito mas apenas realçando a barriga, a olhar a rua. Vinha até a porta da sua frutaria e trocava saudações e dois dedos de conversa através da rua. Não raras vezes, cada um fechava a porta do seu estabelecimento, colocava na porta um cartão gasto com o aviso “Volto Já” e iam lado a lado beber um copo de tinto até à taberna. “Agora nunca mais” dizia o Ti Carlos profundamente abatido, e concluía, “Coitado” como se aquele coitado fosse também para si.
Na taberna ao fundo da rua, local de peregrinação do Sr. Acácio, a Ti São (quantos trocadilhos jocosos não se recorda ela de o Sr. Acácio fazer com o seu nome) lembrava pesarosa a tristeza de o Sr. Acácio nunca ter voltado à terra que recordava com saudade. O Joaquim, marido da Ti São, lembrou-se de uma conversa tida com ele certo dia sobre isso, e sentado à mesa, de pernas abertas viradas para a porta, lembrou as sábias palavras do Sr. Acácio, “Sabes Joaquim? Até gostava de ver como está a minha linda terrinha, mas eu vejo o que mudou o bairro desde que cá estou, e ás vezes faz-me confusão a diferença, e assisti á mudança. Se fosse à terra já não ia conhecer nada, era um choque de certeza, prefiro recordá-la como era.”. O Manel ao ouvir aquelas palavras de sabedoria disse que o velho Acácio era um filósofo, e todos os homens concordaram com a cabeça, em respeito e pesar. O Joaquim levantou-se enérgico e disse a plenos pulmões “Mulher, enche os copos destes amigos para fazer-mos um brinde ao Acácio.”, virou-se para os clientes e tranquilizou os amigos, era por conta da casa. “Ao Acácio!” saudaram os convivas e beberam o copo de um trago, soltando ah's de satisfação pelo copo e tristeza pelo velho amigo. “Coitado…” murmurou entre dentes o Joaquim olhando o copo nas mãos, e todos os amigos baixaram os olhos.
Na retrosaria da Sra. Antonieta, várias mulheres falavam do Sr. Acácio. Lembravam a sua dedicação á mercearia e ao bairro, desde que para ali foi viver nunca mais de lá saiu. Ali casou, teve filhos, e morreu. Em 43 anos fechou a mercearia apenas 5 dias; no dia que casou, no dia que a mulher morreu, no dia que o mais novo morreu com a droga, e no dia que os filhos casaram. A Sra. Piedade lembrou que o Sr. Acácio foi um sofredor, passou por muito na vida coitado, mas nunca perdeu aquele sorriso na cara. A D. Rosa, velha viúva azeda por nunca ter tido filhos, afiançou em voz alta que era por andar sempre bêbado. Iradas, as mulheres remeteram-se ao silêncio, mesmo sendo verdade, dos mortos não se fala mal, e para evitar tensões maiores na sua retrosaria, a Sra. Antonieta suspirou um “Coitado, já lá está, na terra da verdade.” reconciliador, e todas as mulheres abanaram a cabeça em concordância.
No dia seguinte o bairro acordou entristecido, era o funeral do Sr. Acácio. Os homens vestidos com os fatos de Domingo e gravata preta, as mulheres com os vestidos apropriados para as cerimónias fúnebres, todos entravam na morgue, aproximavam-se dos filhos do Sr. Acácio, o Pedro, o mais velho, e a Teresa, o orgulho do Sr. Acácio, cujo maior orgulho na vida foi ter conseguido dar estudos à sua menina, hoje doutora formada e com um emprego de responsabilidade na Câmara, embora ninguém soubesse ao certo o que fazia, mas sempre ajudava as pessoas lá do bairro quando precisavam de tratar de papeladas na Câmara. Ora mais hesitantes e tímidos, ora mais expansivos e com grandes braços no ar e caras de choro, todos deram os pêsames aos filhos do Sr. Acácio, grandes abraços e vozes cavas e profundas pronunciavam-se com as frases devidas, e os filhos do Sr. Acácio lá iam agradecendo a presença, pesarosos e tristes. As mulheres, resquícios das carpideiras de outrora, sentavam-se respeitosas nas cadeiras em torno do caixão, enquanto os homens iam para a rua, formando grupos temáticos. Num grupo de trintões que recordavam o Sr. Acácio à porta da mercearia a vociferar quando uma bola traiçoeira lhe partia um vidro da montra ou lhe entrava pela porta, falava-se de futebol e de quem estava em melhor posição para ganhar o campeonato. Num outro grupo, sexagenários copinchas do Sr. Acácio na taberna do bairro, recordavam as frases filosóficas que o velho Acácio cuspia entre copos de tinto em pé ao balcão com as mãos nos bolsos e uma pose de velho sábio. Em torno do Vítor, alguns homens ouviam-no falar das obras que queria fazer lá em casa. Num grupo mais afastado, os velhos amigos do Zé matavam saudades do amigo, que tinha casado e ido para fora e só voltava ao bairro quando um funeral, um casamento ou um baptizado pedia a sua presença. No café próximo da morgue bebia-se cerveja em memória do Sr. Acácio. E à medida que o tempo passava, os grupos iam-se multiplicando, diminuindo, convulsionando e mudando consoante quem chegava e quem partia para ir ao café ou ir à casa de banho, ou simplesmente sair um bocado dali e apanhar ar.
Pouco depois do almoço, dois empregados da funerária fecharam o caixão e levaram-no para a igreja, friamente e imunes ao espectáculo da morte. Algumas pessoas não conseguiram deixar de pensar que com o hábito até a morte se torna tolerável. Lentamente toda a gente se dirigiu para a igreja, as cabeças pendentes e respeitosas erguiam-se e procuravam o melhor sitio para se sentarem, ou o melhor canto para se encostarem e assistir à missa.
O padre disse palavras bonitas. Algumas pessoas ouviam de cabeças baixas, outras não prestaram muita atenção, mas todas elas sentiam aquela morte, não tanto pelo Sr. Acácio, mas antes pelo lugar ocupado pelo Sr. Acácio. Não foi apenas o Sr. Acácio que morreu naquele dia, não era o Sr. Acácio que era chorado, o que era chorado era o lugar ocupado pelo Sr. Acácio no mundo de cada uma daquelas pessoas. Com a partida do Sr. Acácio, era deixado um lugar vazio que ninguém poderia ocupar, era o lugar do Sr. Acácio. E dependendo do tamanho desse lugar no mundo de cada uma daquelas pessoas dependia a dor e a tristeza de cada uma daquelas pessoas. Ninguém sentia a partida do Sr. Acácio, o Sr. Acácio tinha morrido, o que sentiam era a partida do Sr. Acácio do seu pequeno mundo, e o que choravam era o vazio deixado no seu pequeno mundo pelo Sr. Acácio.
O cortejo fúnebre partiu na direcção do cemitério. O carro funerário avançava lentamente pelas ruas, em sinal de respeito as lojas encostavam as portas ao passar o cortejo, talvez com medo de a Morte entrar. Dentro das lojas pessoas assomavam ás montras e ás janelas e comentavam “Mais um que se foi…”, como se a Morte estivesse perto delas e aquele desabafo fosse proferido por medo, para afastar o terrível Anjo Negro. Atrás do carro funerário os filhos do Sr. Acácio e alguns amigos mais chegados, todos de olhos no chão, com lágrimas sinceras e secas no olhar, braços dados como para se ampararem através daquele terrível dia. Junto, por respeito pela dor, caminhavam alguns amigos do Sr. Acácio, tristes e de cabeça baixa, caminhavam em silêncio, chocados com aquela perda. Logo atrás alguns curiosos, olhavam para a frente o cortejo como um espectáculo, sentiam aquela partida, sentiam já a falta do Sr. Acácio nos dias que sobravam da sua Vida, mas o fascínio por aquele espectáculo era por demais evidente. Queriam recordar o funeral do Sr. Acácio como a ultima memória dele. Longe da multidão mais emocionada, pessoas demasiado chocadas com aquele espectáculo, deixavam-se ficar para trás, para o espectáculo lá mais á frente não ser uma constante a agredir a sua sensibilidade. Caminhavam de um modo medroso, era claro que o funeral os impressionava, talvez recordassem as gargalhadas do Sr. Acácio e a sua filosofia proferida em voz alta e de mãos nos bolsos. A fechar o cortejo alguns jovens, homens já feitos, recordavam o Sr. Acácio como o velho simpático da mercearia, não beberam copos de tinto com ela na taberna, não sentiam muito a sua falta, apenas lá estavam por respeito, porque já eram homens feitos e tinham que ir á ultima despedida do Sr. Acácio. Para passar o tempo naquela tarde, caminhavam juntos, a fechar o cortejo, a rirem-se e a contar anedotas. Lá na frente ninguém lhes levaria a mal, ninguém os veria.
Ao chegar à praça em frente do velho portão de ferro do cemitério, o cortejo aglomerou-se em torno do carro, os empregados da funerária gritavam alto com algumas pessoas e pediam espaço para abrir a porta do carro e colocar o caixão em cima da charrete. Rapidamente, por força do hábito, puxaram o caixão e encaminharam-se para a sepultura já aberta. O cortejo seguiu a charrete que chiava e deixava rastos no pó. No cemitério reinava o silêncio.
Junto á cova o cortejo parou. O padre esperou que os empregados da funerária abrissem o caixão para a última oração em memória do Sr. Acácio. O silêncio só era cortado pela leve brisa nos ramos dos ciprestes. A voz do padre ecoou, algumas lágrimas fizeram-se ouvir, o momento era solene, o silêncio agressivo. Fecharam o caixão e os homens da funerária pegaram o caixão em peso para o depositar na eternidade do pó.
E foi quando…
Um grito ecoou. Terrível! Todos os presentes se sobressaltaram. Outros gritos ecoaram. Mulheres desmaiaram. Os empregados deixaram cair o caixão. Um eco de madeira troou. O corpo do Sr. Acácio no chão, no pó. Gritos. Gritos. Gritos… Que cenário terrível! Ninguém sabia o que se passava. Foi quando o impossível aconteceu…
Do pó, da terra, o Sr. Acácio levantou-se e a sua voz ecoou que nem um trovão: “Mas que merda é esta, caralho?”. Toda a gente se alterou: junto ao espectáculo, os filhos e os amigos mais chegados exibiam sorrisos de êxtase, incrédulos; junto a si os amigos do Sr. Acácio sorriam, olhando em volta, tentando perceber o que se passava; atrás deles uma multidão curiosa convulsionava-se tentando perceber o que se passava, não queriam perder aquele espectáculo único; logo atrás algumas pessoas estavam como que aliviadas por o dia ter tido uma reviravolta feliz; e atrás de si, sem ninguém os ver, algumas pessoas estavam em pânico, sem perceber o que raio se tinha passado. Afinal o que se tinha passado?
Nunca ninguém soube dizer o que se tinha passado. A verdade é que o Sr. Acácio não morreu. Voltou para casa e durante vários dias só se falou daquele caso extraordinário lá no bairro. O Sr. Acácio não voltou a abrir a mercearia, assustada com aquele caso a Teresa quis levar o seu pai para junto de si, e este lá acabou por ir. Deu-se conta que a sua vida tinha sido apenas o bairro e a mercearia e resolveu gozar o resto do tempo que lhe tinha sido dado. Passeou e brincou muito com a Marianita, a sua netinha de cinco anos, filha da Teresa. Visitou muitas vezes o Pedro, e ensinou tudo o que sabia ao Joel e ao Bruno, os seus netos mais velhos. Foi á sua terra, perdeu o medo do choque, gostou de lá ir. Visitar a sua antiga rua, completamente diferente do que se lembrava, foi um momento importante da sua vida. As vezes ia ao bairro, visitava a taberna e matava saudades dos seus amigos. Era o velho Acácio, mas um melhor Acácio, notava-se que estava feliz. Passados meses foi ao funeral do Ti Carlos. Chorou a perda do seu velho amigo. Passado um ano a noticia esperada chegou ao bairro. O Sr. Acácio tinha morrido. Nesse dia houve conversas sobre o caso extraordinário do funeral do Sr. Acácio. Muitas pessoas diziam emocionadas que o Sr. Acácio ainda não era desta que se ia. Com sorrisos ternurentos diziam que o iam propor ao livro do Guiness como o homem mais teimoso do mundo, nem a morte lhe batia o pé. Com sinceridade diziam que o ultimo ano de vida do Sr. Acácio tinha sido o seu ano mais feliz. Estavam contentes por o velho amigo ter ainda conseguido ser feliz. No dia seguinte uma multidão maior que no ano anterior quis acompanhar o funeral do Sr. Acácio, no fundo toda a gente tinha esperança de voltar a ver o Sr. Acácio erguer-se da morte.
Mas o Sr. Acácio foi enterrado. Todo o bairro em peso voltou para casa e durante vários dias o Sr. Acácio foi recordado com saudade. Lembravam o seu primeiro funeral, a sua simpatia, os seus ditos cheios de sabedoria, e principalmente, diziam do Sr. Acácio, que para viver teve que primeiro morrer.

Publicado por almahperditae em 09:25 PM | Comentários (4)

julho 17, 2006

Outono

Era Outono. As folhas cobriam o chão, e as árvores despiam-se e revelavam a sua nudez. Os dias passavam ao sabor do vento cada vez mas frio, e uma chuva miudinha punha uma mascara de tristeza em todas as caras. O Verão, o Sol, o calor, a liberdade, os longos dias, e as noites quentes eram já uma recordação distante a medida que os corpos se iam cobrindo com mais roupa, cada vez mais escura, cada vez mais grossa. De vez em quando o Sol aquecia o chão molhado e o ar ficava com um ambiente sinistro devido aos reflexos da água. Foi num desses dias que a vi pela primeira vez, saindo duma pastelaria que ficava perto da baixa. A sua figura recortava-se no meio da multidão que deambulava perdida naquele final de dia. Segui-a com o olhar até desaparecer numa rua que subia para o Bairro Alto. A sua essência perdurou um pouco mais na minha mente, como uma memória antiga, do passado, que me vinha assombrar, como o desconhecido demasiado familiar, uma sensação estranha que me aflorava os sentidos. Não a conhecia de lado nenhum, pensava eu, mas a sua figura parecia demasiado familiar. Acabei por a esquecer à medida que os minutos avançaram.
Passados dois dias, fui lanchar à pastelaria em frente, como tantas vezes vou, entrei e disse o cumprimento da praxe a empregada e comecei a falar sobre as banalidades do noticiário do dia, ela ostentava um sorriso profissional, e eu ia comendo um bolo para enganar a fome. Foi nessa altura que ela entrou. Com um vestido negro até aos pés, e um sorriso tímido iluminado pelos olhos azuis, de uma profundidade hipnótica. Olhei-a quase que fixamente, e ela reparou, e olhou para mim, enquanto eu tentava disfarçar o meu embaraço. Sorriu. Pediu com uma voz suave um café, e os meus sentidos estavam embrenhados no seu ser, mas não tinha coragem para a fixar. Enquanto me vinha embora olhei para trás o mais discretamente possível e olhei a sua forma sensual, fascinado por tamanha beleza e serenidade. Como é possível amar uma estranha? Talvez por o Amor ele mesmo ser um sentimento estranho?
Vários dias se passaram, várias noites se arrastaram, e pouco a pouco a sua memória dilui-se na confusão dos dias. A sua figura passou a ser uma memória irreal de um qualquer filme que tinha vislumbrado sem ver com atenção. A vida continuou sempre igual, rasgos na monotonia apareciam e desapareciam à velocidade do passar dos minutos, na lenta e persistente viagem dos ponteiros do relógio. E vários dias se passaram, algumas chuvadas caíram e as conversas saudosas sobre o Verão começaram a rarear cada vez mais. Já era Outono, e as pessoas habituaram-se a ele. Até o Sol passou a ser uma memória e o calor algo irreal de quem já ninguém se lembrava, acredito que as praias estavam vazias, acredito que os parques onde à semanas se faziam piqueniques ao fim de semana também estavam vazios, mas tal como o resto da multidão anónima, também eu não lá ia, e esses locais já não passavam de lembranças difusas.
Era um dia de chuva, miúda, chata, todos se sentiam deprimidos como o tempo, as conversas trocavam-se de um modo maquinal, desinteressante, as palavras jorravam sem nenhuma emoção, como se todos fossemos máquinas com as baterias perto de se findarem, para enfim apodrecermos inertes e esquecidos. Sai do escritório para ir beber um café na pastelaria em frente, como tantas vezes fazia, algumas vezes pelo prazer de sair, pela necessidade da pausa, hoje apenas fui por ir, talvez uma ténue esperança de injectar um pouco de vida em mim, ajudado pela cafeína, afastando-me daquele ambiente clautrofóbico. Sentei-me ao balcão e pedi um café, a empregada colocou-me a chávena fumegante diante de mim e sorvi calmamente o café. Olhava o pacote de açucar vazio, lia desinteressadamente o que estava escrito e senti sentarem-se a meu lado, olhei para me arrancar da monotonia e via… novamente a rapariga loura, vestida de negro, bela como sempre a vi. «Bom dia.» Disse-me ela com um sorriso. Respondi com as mesmas palavras, sei que denotei um nervosismo miudinho, mas o seu sorriso foi simpático, acalmou-me. A minha mente recriava um sem numero de frases interessantes, inteligentes, divertidas para lhe dizer, para meter conversa, para quebrar o gelo, mas os meus lábios recusavam-se a qualquer frase, não conseguia dizer nada, estava a olhar o pacote de açúcar a dançar nos meus dedos, gozando comigo do alto da sua insignificância, como que a dizer-me que eu era ainda mais insignificante. À medida que o meu desespero era maior olhava cada vez mais para ela, a loura de negro, ostentando um sorriso, serena, bela… ela pediu um café também, a empregada olhou para mim e deu-me a impressão que sorriu, acho que imaginei o sorriso, a loura pendeu levemente a cabeça, para coçar com a ponta do dedo, levemente, imperceptível, apenas o necessário para ficar com os olhos apontados na minha direcção, com o seu sorriso sereno, com o seu olhar cristalino a brilhar, com o meu corpo numa convulsão surda. A empregada colocou a chávena na sua frente, ela olhou em frente, sorrindo, serena na sua majestade, serena na sua beleza, sabendo-se desejada, sabendo-se admirada, sorrindo triunfalmente, serenamente triunfal. As minhas palavras inteligentes teimavam em não sair, não conseguia dizer nada, o suor frio nas minhas costas formava uma camada gélida que me dizia constantemente que nunca nenhuma palavra sairia da minha boca, que não conseguiria falar com a loura de negro, que tudo o que tinha em mim para sempre ficaria encerrado ai mesmo, em mim. Tentava ganhar coragem, ganhar a força que sabia que tinha algures dentro de mim, talvez perdida, talvez à espera de ser acordada, mas sabia que tinha dentro de mim, tinha que ter, toda a gente a tinha, por isso, também eu teria que a ter, também eu teria que conseguir dizer as palavras que a minha mente gritava no mais gélido silêncio de mim. Olhei corajoso na direcção da loura de negro dos olhos azuis. Abri a boca na maior convicção, na maior convicção que consegui fingir a mim mesmo. Virei-me para a empregada e perguntei o preço. Talvez apercebendo-se da luta que travava dentro de mim, a empregada respondeu do modo mais cruel que conseguiu, “É o mesmo preço de sempre.”. Cruel resposta que me remeteu para a minha triste insignificância, dei-lhe a moeda que já sabia a partida que teria que lhe dar e sai derrotado do café, dirigi-me para o escritório que era meu, onde não teria que travar batalhas das quais sairia derrotado à partida, e chorei silenciosamente até à hora marcada, a hora em que dirigi o meu cadáver para a casa que me abrigaria até ao dia seguinte.


Ao fim de uma semana tudo não passava de uma triste memória. Convenci-me que apenas iria falar com ela meia dúzia de palavras inócuas, que daria uma ideia banal da minha pessoa, que apenas daria a impressão que era um pobre desgraçado solteiro tentando um engate na pastelaria em frente ao escritório onde trabalhava. Claro que ela, bela como era, como sabia que era, não cairia assim na conversa de qualquer um, como mulher que era, bela como era, como sabia que era, divertia-se com as palavras ridículas, com as conversas metidas a pressão que todos os homens tentavam com ela. Eu seria apenas mais um a quem ela criaria a ideia da possibilidade do que nunca aconteceria, ela olharia os meus olhos, veria a chama que prometia incendiar-me o corpo, incentivaria essa mesma chama, até ao ponto em que deitaria um simples copo de água sobre uma labareda que prometia um incêndio. Reduziria o fogo a cinza fumegante. Sairia triunfante ante o seu próprio poder. E eu ficaria reduzido a um nada. Convenci-me que o seu poder ficou adormecido na promessa do que nunca foi. E acreditei.
A medida que o Outono tomava conta das ruas e das pessoas, a languidez dos dias cinzentos eram cada vez mais confortáveis. As vezes percorria as ruas durante a hora do almoço e olhava as caras pálidas das pessoas, fumando cigarros cujo fumo se elevava no ar frio, perdendo-me na multidão, anulando-me na multidão. A memoria da loura de negro por vezes assaltava-me quando via uma cabeça mais alourada, tinha uma secreta esperança que ao cruzar-me com a cabeça olharia os olhos da minha deusa silenciosa, mas de cada vez que sentia essa ténue esperança, esta era imediatamente despedaçada ao olhar olhos estranhos, sem sorrisos provocadores em lábios que murmuravam bom dia. Nessa altura a minha mente vogava para aquele dia em que ela estava a minha frente e relembrava novamente a minha derrota e voltava a dizer a mim mesmo que foi pelo melhor, e por isso o melhor era esquecer essa miragem da loura de negro. Fazia contas mentais: a quanto tempo tinha sido esse dia? Os dias confundiam-se todos na chuva e nas nuvens, nos passos que ecoavam nas ruas molhadas, no som do vento frio… talvez um mês, talvez já quase dois. Não o sabia já ao certo, talvez até já fosse mais, os dias eram todos iguais. Tanto tempo perdido. Tantos dias sem memória. Tantos dias desperdiçados…
Num dia igual a todos os outros entrei na pastelaria e pedi o café. Lá fora a chuva caía miúda, as vozes da multidão ecoavam nas paredes da pastelaria vazia, o som do moinho tomou conta de tudo, e finalmente o silêncio venceu. A empregada, talvez aborrecida, meteu conversa comigo, eu respondi, sim, já fazia frio. Acendi um cigarro e fumei no conforto do silêncio, olhando o fumo elevar-se lânguido no ar parado da pastelaria. A empregada insistiu na conversa, se calhar já à muito tempo que ninguém entrava e se sentava ali com ela, devia de precisar conversar com alguém, olhei nos seus olhos com um sorriso, para criar uma ligação entre nós, mostrar-lhe que poderia falar comigo, tinha baixado a minha distancia, e as suas palavras alarmaram-me. Sim, afinal já é Inverno, o Outono acabou, tudo avança e eu nem dou pelo tempo que passa.

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setembro 28, 2005

Conto de Uma Noite Só

Ele entrou no café. Desenhou uma dança por entre as mesas e sentou-se no balcão. Acendeu um cigarro com o vagar do tempo cadente e esperou pelo café que pediu. Todos os sons do café eram ele: o jogo de futebol na televisão, os homens ruidosos que assistiam ao jogo que talvez fosse importante, a mulher sentada na mesa do canto, falando ao telemóvel com voz alta, não se importando com os outros, tinha confiança em si, a rapariga por detrás do balcão que arrumava copos sujos na máquina de lavar, sem grande cuidado, tinha mais que fazer, os copos batiam uns nos outros e o seu som de vidro ecoava tímido e rápido. Ele ouvia tudo, ele era tudo, o som da vida, a música do mundo… Ouvia… Sentia… Embriagava-se no turbilhão da vida, enchia-se com todos os sons, sentia todos os ruídos, fazia parte do todo, e ai se anulava. Confundia o seu silêncio interior com o ruído do mundo que o rodeava, tornava-se Uno com tudo, preenchia todo o seu Vazio. Ouvia apenas. Diluía-se no Todo.
Ela sentia o peso dos sacos no corpo cansado. Pairava pelas ruas, olhando as montras, olhando o vazio que tinha dentro dela, sentindo tudo através do vazio que crescia dentro dela, o vazio que cada vez tomava mais conta de si, o Vazio… O Nada… Arrastava-se na multidão, sentindo tudo através sempre do mesmo vazio, sem conseguir gritar, expulsar, exorcizar o vazio… talvez a Felicidade não existisse, talvez tudo fosse apenas um sonho, talvez a vida não fosse mais que uma longa espera pela morte. Talvez… E a cidade despia-se ante seus olhos cansados, passava pelo seu corpo cansado, e ela olhava através de si, do seu vazio, e queria gritar alto, encher o mundo com os seus gritos, com a sua pessoa, rasgar o seu silêncio com os gritos que a sua mente gritava silenciosamente. Pairava pelo mundo. Gritando em silêncio. Desvanecendo-se no Nada.
Ele saiu do café. Caminhou por entre as pessoas apressadas, esperando algo que nem ele sabia ao certo o que era, talvez não esperasse nada… O Sol começava a banhar tudo de sangue, um pouco mais e as ruas eram conquistadas pela noite, e ele caminhava… Caminhava por cima dos últimos raios de Sol, pisando cada pedra com o vagar de ser a ultima, como se o seu caminho fosse apenas o caminho que tinha que percorrer para não estar parado. Como se aquele não fosse o seu caminho, como se aquelas ruas, aquelas pessoas, aqueles passos fosse um grito desesperado a encher o silêncio que o consumia. Como se caminhasse estando parado, como se o seu caminho solitário não fosse um caminho, mas apenas passos ecoando sem sentido na cidade, ecoando nele, como se não pudesse parar, como se não suportasse o silêncio. Por isso continuou caminhando na luz cada vez mais ténue das ruas que se despiam, se cobriam de silêncio, ouvindo os seus passos, só, sentindo o peso do seu corpo no chão, caminhando, só, sentindo o ecoar dos seus passos vazios na calçada, caminhando, só…
Ela sentou-se numa esplanada. Olhava as sombras dos prédios, as janelas brilhantes, as paredes rubras, as ultimas résteas de luz. Mal programados, os candeeiros começavam a acender-se, pálidas tentativas, inútil conquista ao Sol, a sua luz ainda era um nada, um vazio. Talvez fosse como ela. Sentia-se com tanto dentro de si, tinha tanto a dizer, cada dia que passava, cada hora, cada minuto, mais palavras que tinha dentro de si, que desenhava na sua alma, que queria partilhar, queria expulsar de si, mas ninguém a ouvia... O silêncio a que era votada fazia-a sentir-se vazia. Tal como aqueles candeeiros, que daqui a poucas horas serão a réstea de luz das ruas negras, mas agora, ainda com o Sol a dominar o horizonte de prédios, não passavam de um Nada, de um vazio. À sua volta toda a gente tinha algo a dizer, mas ninguém a queria ouvir… Ela era como um candeeiro aceso durante o dia. Iria escrever isso no caderno que ouvia os seus gritos mudos. Ninguém a ouvia, escreveria isso no seu caderno, que a ouvia sempre.
Ele entrou num jardim. Sentiu os seus passos esmagarem pequenos torrões de areia. Ao longe, ao fundo do jardim, os risos das crianças ecoavam através do rumor do vento nas copas das árvores, era a música do silêncio, ele estacou, olhava a alameda, o verde da erva, o vermelho do Sol, a cor terra dos troncos, a luz das folhas, e ouvia… Ouvia o vento, os risos, os seus pés, a cidade ao longe, tão longe, tão distante, no fim da areia sob os seus pés. Acendeu um cigarro e ficou a fumar, sozinho, no meio do jardim, em pé, ouvindo o vento, as folhas, as crianças, a cidade…
Ela cansou-se. Disse tudo o que queria dizer, o caderno não a ouvia, apenas ela tinha a latejar na sua cabeça as palavras, ninguém a ouvia, apenas ela possuía as suas palavras, levantou-se e continuou a andar através da cidade, contemplando tudo com o seu vazio, com o silêncio de ninguém a ouvir, apenas ela tinha em si as suas palavras… Caminhou com o peso dos sacos, sempre constantes, cada vez mais pesados, caminhou com a sua alma cada vez mais cheia, e sempre no constante silêncio de ninguém a ouvir. Olhava as pessoas, as crianças, os jovens, os idosos, todos com a mesma pressa, mas cada um com a sua direcção: a pressa de correr, a pressa de chegar, a pressa de fugir… As cidades são homogéneas, vontades diferentes, vidas diferentes, sonhos diferentes, desejos diferentes, mas tudo é confundido na multidão, porque todos fazem os mesmos gestos repetidos, apenas têm objectivos diferentes. E o Sol, indiferente a tudo isto, já quase deu lugar á noite.
Ele sentou-se num banco de jardim. Queria ficar ali a ver as ultimas réstias de Sol, queria ficar ali a ouvir a cidade, lá ao longe, na distancia, cada vez mais adormecida, cada vez mais silenciosa, com ele cada vez mais uma penumbra, cada vez mais nada. Ouvir o ultimo choro da ultima criança, antes de passar com a mãe à sua frente, ouvir a criança engolir a ultima lágrima, e a voz doce da mãe a dizer com voz cansada que amanhã havia mais, era tempo de regressar a casa. E depois… Quando o jardim estiver mergulhado no silêncio, quando os carros que passam no fim da alameda de terra já não buzinarem, quando a água do lago dos cines sem cisnes, for o único murmúrio nas sombras do jardim, ele ficar ali, no silêncio. Ele ficar ali, no escuro. Ele ficar ali, sozinho. À espera de nada, à espera daquilo que nem ele sabia o que era. Ele, o jardim, o silêncio, a escuridão… A longa espera pela morte, o longo silêncio que o embala e esmaga.
Ela entrou no jardim. Queria gritar à noite que estava viva, queria rasgar o longo silêncio que a cobria, mas ninguém a ouvia, ninguém queria saber, e ela ia refugiar-se no jardim, chorar, gritar, encher-se com o vazio que a enchia, morrer na noite e no escuro, até ressuscitar. Caminhou pela alameda, já estava vazio o jardim, só ela sobrava no meio daquele vazio negro. Caminhava no silêncio, queria explodir à noite, chorar, gritar, cuspir ao ar que estava viva, que ali, entre a relva e as árvores havia também vida no escuro, no ventre escuro da cidade. Derrota final, perder as força por fim, pousar os sacos no chão, sentar-se num banco, sentar-se num banco e chorar em silêncio. Era melhor esquecer os gritos mudos que a enchiam, desistir apenas, sentar-se, morrer, ressuscitar…
Ele ouvia. Ouvia o silêncio, ouvia o vazio, ouvia a solidão. Quando acordou da letargia, ouviu algo concreto. Passos? Ouviu os grãos de areia a serem esmagados, suavemente, gentilmente. Ouviu a respiração da mulher que se aproximava, perdida, cansada, talvez dos sacos das compras. Sem o ver, sem ver nada, cega ante todo o Universo, ante ela mesma. Caminhou na sua direcção, sem o ver, sem ver nada, estava escuro. Quando distinguiu a sua sombra na noite, hesitou primeiro, avançou depois, já nada tinha a perder…
Eles morreram um no outro.

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dezembro 14, 2003

A Aldeia (Conto - Final)

(continuação de...)


Senti uma tontura. Aproximei-me dos escombros do carro, afastei algumas pessoas que se interpunham com veemência, e sentia suores frios, um sufoco qualquer… Aproximava-me, não sabia porque, queria fugir, mas algo me puxava para o triste espectáculo da mulher morta. As faces assustadas das pessoas eram-me indiferentes, olhava para elas quando lhes tocava na cegueira, mas não via nada mais que um vazio. Perdi os sentidos.
Acordei num deserto. O Sol queimava-me a pele, mas eu tinha frio. Estava deitado na areia e não via nada tal a intensidade da luz. Levantei-me desnorteado e cerrei os olhos tentando perspectivar algo no meio do Nada. A meu lado, vermes contorciam-se e o seu frenesim sob o Sol escaldante fez-me estacar. Visco e peles e escamas… Tudo num aglomerado de decadência sob o Sol do deserto. Comecei a correr.
Corria que nem um louco, tentava fugir de algo que nem eu mesmo sabia o que era. Ainda há pouco estava numa aldeia, via as faces das pessoas e imaginava o seu vazio, comparava-o com o meu próprio vazio e agora estava no vazio, sem saber o que fazia aqui. Corria apenas, fugia de algo que eu mesmo desconhecia. Parei de correr. Ofegante, sentei-me na areia escaldante, mas apenas sentia um calor ameno na pele. A meu lado, sentou-se um Anjo. Falou-me de Amor, de esperança, mas eu nada ouvia, estava deleitado a olhar as suas asas. Faziam um efeito curioso: tinham penas de seda que se movimentavam para cima e para baixo ao sabor do vento e consoante a contracção e descontracção dos músculos que lhe saiam dos ombros. Era negro, enorme (perto de dois metros), com uns olhos azuis penetrantes, e um sorriso brilhante. Tinha cabelos de luz, que me adormeciam os sentidos, sei que me tocou, mas eu nada senti. Sentia apenas a sua presença e nem o seu abraço me acordou do sonho. Estava fascinado a olhar a sua pele de mármore, alva e brilhante, e a sua voz parecia um violino, com uma doce melodia que me embalava. Sei que me disse coisas importantes, mas à medida que o via afastar-se com a força das asas a impulsiona-lo para o Infinito, pensei que nada do que poderia ter ouvido interessava, ele tocava-me apenas com a sua presença, e nada poderia fazer por mim senão embalar-me.
Olhei o horizonte. O Sol continuava a queimar tudo em meu redor, mas eu nada sentia além da areia tépida. Enfiei os dedos na areia e fiquei a vê-la a escorrer-me por entre os dedos. Repeti o gesto. De repente a areia transformou-se em sangue. Levantei-me assustado, estava sentado numa poça de sangue, e os meus pés afundavam-se no líquido quente, viscoso, vermelho… Tentei fugir. Mas os meus pés afundavam-se cada vez mais naquela pasta vermelha, e todo o deserto se transformou em sangue, via no fim do horizonte o amarelo da areia transformar-se em vermelho vivo de sangue… O sangue dos inocentes… Todo o sangue derramado em toda a Humanidade, congregando-se no meu vazio.

Acordei.
Estava morto, com toda a aldeia a olhar para o meu corpo derrotado no chão frio, com a chuva a cair sobre a minha pele e o meu sangue.

(texto completo)

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novembro 23, 2003

A Aldeia (Conto - 4ª Parte)

(continuação de...)

O autocarro avançava aos solavancos, que me embalavam o corpo prostrado no assento sujo. Lá fora as nuvens cobriam tudo com um manto de lágrimas e escuridão. Olhava através da janela, via faces que passavam anónimas, e perdia tudo de vista a velocidade do tráfego das aldeias, tudo ficava para trás, tudo desaparecia e nada fazia sentido. Perdia-me nestes pensamentos, perguntava-me qual o significado de tudo isto quando…
Estrondo… Gritos… Silencio… O autocarro estacou violentamente, fui projectado para a frente, agarrei-me ao banco da frente e equilibrei-me. Que se passava? As pessoas levantavam-se e gritavam, pela janela viam-se pessoas que corriam na direcção do autocarro vindas de todos os lados, de todas as direcções. Toda a gente se precipitava para a rua, eu segui a multidão. Vi um homem perdido e aos gritos, com sangue a pender-lhe da testa ensanguentada, fumo e ferro retorcido na frente do autocarro. Tinha havido um acidente, um carro que foi abalroado pelo autocarro, e agora o seu condutor estava aos gritos na rua, desesperado, olhei o carro: lá dentro uma mulher jazia no seu caixão de metal com sangue a escorrer da boca, os olhos vazios abertos violentando toda a gente com o seu horror, a sua pele disforme, esmagada e cortada pelos ferros e vidros que esmagaram o seu corpo davam uma ideia de horror, de violência, de Morte em toda a sua crueldade e frieza…

(continua...)

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novembro 20, 2003

A Aldeia (Conto - 3ª Parte)

(continuação de...)

Sentei-me a sua frente e reparei que ainda mantinha a beleza que sempre a caracterizou, acho que ela reparou que a estava a avaliar e desviou os olhos de mim com um sorriso tímido. Achei-me estúpido, e perguntei o que queria, café respondeu ela e levantei-me e fui ao balcão pedir dois cafés. Sentei-me novamente, e acendi um cigarro, não perguntei se podia fumar, senti-me ainda mais parvo por não ligar a estes pormenores de boa educação, mas como ela não disse nada, fingi que não se passava nada, e insultei-me a mim mesmo violentamente. Perguntei-lhe como ia a vida dela, esta a acabar o curso, é o ultimo ano, e devolveu-me a pergunta, eu respondi que estava tudo no mesmo, perguntou-me se já namorava e eu respondi que não, tinha acabado, as coisas correram pessimamente e devido a isso tinha passado um inferno, porque me tinha custado muito perder aquela pessoa, e ela? Ela tinha também acabado a pouco tempo, mas as mulheres são mais fortes que nos homens, e mesmo que lhes custe sofrem em silêncio, não tinha ninguém em mente, não queria ninguém por enquanto, queria tempo e meter as ideias no sítio, eu disse que compreendia, afinal tinha passado pelo mesmo, tinha andado meses assexuado, sem desejos, nem interesse em relações, e isso fez-me muito bem, porque agora estava livre, e finalmente preparado para uma nova relação. Se há alguém em mente? Não sei. Talvez, talvez não. O tempo o dirá. Sim. Gosto dela e muito, cada dia que passa descubro mais coisas fascinantes nela, mas as coisas não podem entrar em loucuras descontroladas, e o tempo é sempre um aliado. Primeiro estou eu, tem que ser. Ela andava a descobrir-se, a viver sozinha sem ter aquele contacto diário mesmo que por telemóvel com alguém. Lia muito, ficava horas perdidas a sonhar em cima da cama, disse-me que se lembrava do passado, e dos erros que tinha cometido, lembrava-se as vezes de mim, tinha gostado de mim, achava-me uma pessoa divertida, inteligente, e gostava dos tempos em que andávamos sempre juntos, em que íamos para casa dela, quando combinávamos ir estudar qualquer coisa e nunca ninguém estudava nada porque eu só fazia merda e metia toda a gente a rir-se. Disse que eu sempre a fascinei, porque por baixo do gajo maluco, ela via alguém sensível, e quando ela estava triste eu primeiro falava com ela, dizia-lhe coisas que a faziam sentir melhor e quando ela estava quase bem, fazia-a rir com as minhas parvoíces e tudo desaparecia. Tinha saudades minhas e foi bom reencontrar-me. Gostei de a ouvir. Fez-me bem ao ego, e mostrou-me que afinal a minha ex é mesmo a única excepção, ela é que esta enganada, e eu afinal não sou merda nenhuma.
Recebi uma mensagem. Tinha que ir. Ela sorriu, e prometemos não perder mais o contacto, eu iria visita-la quando tivesse carro, quando ela fosse ao fim de semana a casa íamos beber um café. Qualquer coisa assim. Paguei, e saímos do café. Perguntei-lhe se havia alguma farmácia por ali, precisava de ir comprar uns comprimidos porque doía-me muito a cabeça disse eu, ela não sabia e fui ao quiosque já familiar perguntar, o homem foi simpático, e disse-me onde havia. Tinha que apanhar o 27, e era cinco paragens a frente. Esperei o autocarro com ela a meu lado, falamos um pouco, e quando o autocarro chegou demos um beijo de despedida e promessas de um novo café. Mais um beijo e quando ia a encostar a minha cara a dela via hesitar. Parecia querer dar-me um beijo na boca, fingi que não reparei, e despedi-me de vez e entrei no autocarro. Fiquei a olhar pela janela, e ela parecia estar triste, acenou-me com um sorriso e perdi-a de vista.
Deixei a aldeia para trás banhada por lágrimas do céu.

(continua...)

Publicado por almahperditae em 11:16 PM | Comentários (0)

novembro 16, 2003

A Aldeia (Conto - 2ª Parte)

(continuação de...)

Paguei e sai.
A chuva tinha cessado por um tempo indeterminado e fui conhecer as ruas. Vaguei no meio da multidão, examinava as suas caras, imagina os sofrimentos e alegrias por baixo das suas roupas escuras de tom outonal, e via-os dirigirem-se ao café, ao quiosque do fim da rua, para uma casa qualquer, para um sitio qualquer… Não sei para onde iam e isso também não me interessava, o que me fascina é o agora, o momento preso no Tempo em que se cruzam por mim, em que as consumo através da sua expressão, das suas dores e sorrisos escondidos. Fui até ao jardim, pensei em ir até a beira do rio, ver o seu calmo rumar para o Oceano, sentar-me num qualquer canto e observar, e fumar cigarros na esperança dum raio de Sol furtivo que me aqueça por um tempo efémero. Mas a chuva é persistente, e resolveu reaparecer para mostrar toda a sua glória. Voltei atrás.
Perdi-me tempos incontáveis no quiosque, abri revistas chamativas, e pousava-as no mesmo sítio, abrigava-me da chuva como todas as outras pessoas que se ficavam por lá. Apesar de todas elas não se demorarem muito, tinham aonde ir, estavam a viver a pressa, tinham que sair, e por isso depressa se iam embora enfrentando a chuva fria e indiferente aos corpos encolhidos. Apenas eu e mais uma outra pessoa lá nos demoramos, o outro era um arrumador que actuava no parque de estacionamento em frente, mas tinha tirado uma folga para se abrigar da chuva, não pude deixar de me sentir constrangido, afinal só eu e ele estávamos perdidos, e vagando sem destino… Mas continuei ali, sentia-me protegido e seduzido pelas revistas expostas, queria comprar uma, mas não sabia qual, afinal tinha que ser algo bastante completo, visto que leio demasiado rápido, e ir para um café com uma revista que ia devorar em vinte minutos, não preenchia o tempo que tinha em mãos. Abri uma revista isolada num canto, já gasta pelos dedos incontáveis que a tinham folheado, e perdi-me no seu mundo. Perdi-me demasiado tempo (a leitura tem o condão de nos transpor para um Universo paralelo), tanto tempo que o rapaz do quiosque me veio avisar que não podia ficar ali a ler a revista. Pedi desculpa e paguei a revista, visto que era aquela mesmo que ia levar. O rapaz foi meter o dinheiro na caixa registadora e depois veio pedir-me desculpa, mas eu disse que não havia problema nenhum, e fiquei a conversar com ele, muito tempo, a minha terra não era desconhecida para ele, já aqui trabalhou durante seis meses, falei-lhe do pinhal de Leiria, de S. Pedro, e ele conhecia tudo, disse que vivia num sitio lindíssimo, e quando pode ainda da um saltinho até S. Pedro visto que a praia é lindíssima. Achei curioso o facto, afinal o nosso Mundo, é realmente uma aldeia, por mais distantes que estejamos das nossas raízes encontramos sempre alguém familiar, alguém que conhece a nossa terra, alguém que tenha algo em comum com a gente, e mesmo no meio da maior metrópole, cada rua pode ser uma aldeia, onde todos se conhecem, podemos estar perdidos numa qualquer cidade enorme e olhar as pessoas e ver que afinal é uma aldeia, que apesar dos modernismos, do alienamento, do stress, do lufa-lufa do dia a dia, as pessoas ainda interagem como se numa aldeia vivessem, no café sempre igual, no quiosque sempre igual, no sorriso partilhado, na conversa de ocasião, as pessoas ainda comunicam, mesmo que a solidão seja a nossa única companheira.

Continuava a chover. Na paragem do autocarro as pessoas amontoavam-se no pequeno cubículo para se abrigarem, quando um autocarro parava, as pessoas que saíam dele, saíam a correr e abrigavam-se no primeiro ponto que encontrassem, geralmente o quiosque. Compravam tabaco, compravam o jornal do dia, qualquer coisa para se desculparem de estar ali, para justificar a sua intromissão naquele espaço. Foi quando a vi. Vestida de negro, sóbria, e com a beleza que sempre a caracterizou, há muitos anos que a conheço, que a conheci, já nos perdemos e reencontramos, e sempre bela, sempre com aquele charme que sempre enlouqueceu os homens, sempre com aquele sorriso que sempre adorei, saiu a correr com os cabelos louros a esvoaçarem e entrou naquele espaço. Não me viu, não olhou para ninguém, apenas entrou desesperada com a chuva a molhar-lhe o corpo quente por debaixo da roupa e demorou tempo a recompor-se, a habituar-se ao abrigo. Foi quando a interpelei, olhou para mim e sorriu, surpresa por me ver ali, o que estava ali a fazer? Não estava a fazer nada, andava a descoberta perdido, à espera. E ela? Ia para casa, tinha que estudar, tinha chegado à pouco no expresso, costuma vir mais tarde, mas no dia seguinte tinha um exame, tinha vindo mais cedo, que ia fazer eu? Nada. Esperar apenas. Quanto tempo? Não sei. Vamos então beber um café, meter um pouco a conversa em dia?
Fomos.


(continua...)

Publicado por almahperditae em 12:07 AM | Comentários (0)

novembro 10, 2003

A Aldeia (Conto - 1ª parte)

O sol estava escondido. Entrei no café que me convidava a tomar uma refeição em condições e sentei-me ao balcão, sozinho porque assim perco-me em mim e descubro e combato os dragões de mim. Os clientes do costume, as conversas da bola, quem ganha e perde, quem vai aonde e quem recebe quem. Estas conversas fascinam-me, deixam-me a pensar que assim os dias arrastam-se, as pessoas convivem, combatem a solidão dos dias (não pude deixar de reparar que era Domingo, aquele dia em que se deveria almoçar em família) e não se entregam. Fecham a sua Alma em si, e fogem do desespero e do Medo, sem enfrentar os monstros que gritam timidamente nos seus íntimos camuflados. Comi e paguei, sai. Acendi um cigarro e enfrentei a multidão que se estendia pela aldeia. Ouvia os gritos das crianças, os pais preocupados «Olha os carros.» Gritavam como se o seu sangue e a sua carne estivesse descontrolada e indefesa as agressões do mundo exterior. Porque estava. A sua carne expelida em gritos de prazer e dor tinha vida própria, e eles queriam a todo o custo proteger a sua carne, o seu sangue, a sua alma…
Entrei no café em frente, era um café diferente apenas isso, queria descobrir os meandros da aldeia, todos os ventres de todos os cafés, de todas as esquinas, viver no seu íntimo, para beber todos os seus ensinamentos, e pedi uma bebida. Nada de especial apenas o costume, uma coca-cola, é sempre o que bebo quando não sei o que beber, é o meu refúgio conhecido. Sentei-me numa mesa e olhei o telemóvel, o meu cordão umbilical com o mundo conhecido, com o meu mundo, com o mundo longe daquela aldeia vibrante. Tinha algumas mensagens e respondi, não estava só, apesar de o desejar, para mais despido me vestir com os odores e os ruídos desconhecidos. Ainda bebi outra cola, ainda comi mais um bolo, não queria, apenas tinha tempo de sobra e queria ficar ali mais tempo, abrigado da chuva e do frio que lá fora corruia os corpos encolhidos que via passar através da porta envidraçada. As conversas não variavam muito do outro café, nas aldeias geralmente todos se conhecem e todos vivem o mesmo dia a dia. A escolha de um ou outro apenas varia por simpatias, por amizades, ou talvez pelo hábito. Vão a um e não vão a outro porque habituaram-se a esconder-se num deles, e o dono, que tem que zelar pela sua sobrevivência, trata a todos por igual, tal como o outro dono (provavelmente nem se dão, fruto de competições financeiras e de clientela), e as pessoas habituam-se, são bem tratadas num deles, para que ir ao outro? É mesmo em frente, um passo, talvez dois, apenas uns dez segundos a mais ou a menos, vinte se um carro rasgar o silêncio.
Bebi mais um café. Olhei as caras todas iguais, a esta hora já não eram os solitários, já eram os idosos, os vizinhos do lado que vinham beber um café depois do almoço. Casais apenas, idosos na maioria, um casal novo, namorados, talvez não namorem a muito tempo, andam perdidos a viajar, a descobrirem-se a si (se namorassem a algum tempo não se descobriam no meio da multidão a servir de segurança), e não reparam que estão numa aldeia, vieram ver a aldeia que se esconde no meio do Mundo civilizado, nem reparam que se encontram numa aldeia, apenas entram para almoçar, não reparam que estão numa aldeia, não vêem o sofrimento das pessoas, não reparam que estão numa aldeia, estão isolados no seu namoro recente. Vivem para o outro na esperança que alguém viva para eles.
Não reparam que estão numa aldeia.


(continua...)

Publicado por almahperditae em 11:41 PM | Comentários (2)