março 31, 2008

Devia morrer-se de outra maneira.
Transformarmo-nos em fumo, por exemplo.
Ou em nuvens.
Quando nos sentíssemos cansados, fartos do mesmo sol
a fingir de novo todas as manhãs, convocaríamos
os amigos mais íntimos com um cartão de convite
para o ritual do Grande Desfazer: "Fulano de tal comunica
a V. Exa. que vai transformar-se em nuvem hoje
às 9 horas. Traje de passeio".
E então, solenemente, com passos de reter tempo, fatos
escuros, olhos de lua de cerimônia, viríamos todos assistir
a despedida.
Apertos de mãos quentes. Ternura de calafrio.
"Adeus! Adeus!"
E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento,
numa lassidão de arrancar raízes...
(primeiro, os olhos... em seguida, os lábios... depois os cabelos... )
a carne, em vez de apodrecer, começaria a transfigurar-se
em fumo... tão leve... tão sutil... tão pòlen...
como aquela nuvem além (vêem?) — nesta tarde de outono
ainda tocada por um vento de lábios azuis...

(José Gomes Ferreira)

Publicado por almahperditae em 10:18 AM | Comentários (0)

fevereiro 13, 2008

A New War

e pensar que, depois que eu me for,
haverá mais dias para os outros, outros dias,
outras noites.

cães andando, árvores balançando
ao vento

não deixarei tanto.
algo para ler, talvez.

um rebelde na estrada
devastada.

Paris às escuras

(Charles Bukowski)

Publicado por almahperditae em 02:32 AM | Comentários (0)

novembro 01, 2007

Lisbon Revisited (1923)

NÃO: Não quero nada.
Já disse que não quero nada.
Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.

Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!

Tirem-me daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) —
Das ciências, das artes, da civilização moderna!

Que mal fiz eu aos deuses todos?

Se têm a verdade, guardem-na!

Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo, ouviram?

Não me macem, por amor de Deus!

Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?

Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja da companhia!

Ó céu azul — o mesmo da minha infância —
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflete!
Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.

Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo...
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!

(Álvaro de Campos / Fernando Pessoa)

(por alguma razão este é o meu poema favorito de sempre...)

Publicado por almahperditae em 09:49 PM | Comentários (0)

fevereiro 26, 2004

Roses For Rose



Red roses were her favorites, her name was also Rose,
And every year her husband sent them tied with pretty bows.
The year he died the roses were delivered to her door,
The card said, "Be My Valentine," like all the years before.

Each year he sent her roses and the note would always say,
"I love you even more this year than last year on this day."
"My love for you will always grow with every passing year."
She knew this was the last time that the roses would appear.

She thought he ordered roses in advance before this day.
Her loving husband did not know that he would pass away.
He always liked to do things early way before the time.
Then, if he got too busy everything would work out fine.

She trimmed the stems and placed them in a very special vase.
Then set the vase beside the portrait of his smiling face.
She would sit for hours in her husband's favorite chair.
While staring at his picture and the roses sitting there.

A year went by and it was hard to live without her mate.
With loneliness and solitude that had become her fate.
Then, the very hour as on Valentines before,
The doorbell rang and there were roses sitting by her door.

She brought the roses in and then just looked at them in shock.
Then, went to get the telephone to call the florist shop.
The owner answered and she asked him if he would explain,
Why would someone do this to her causing her such pain?

"I know your husband passed away more than a year ago,"
The owner said, "I knew you'd call and you would want to know."
"The flowers you received today were paid for in advance."
"Your husband always planned ahead he left nothing to chance."

"There is a standing order that I have on file down here,
And he has paid well in advance, you'll get them every year.
There also is another thing that I think you should know,
He wrote a special little card he did this years ago."

"Then, should ever I find out that he's no longer here,
That's the card that should be sent to you the following year."
She thanked him and hung up the phone her tears now flowing hard.
Her fingers shaking as she slowly reached to get the card.

Inside the card she saw that he had written her a note.
Then, as she stared in total silence this is what he wrote...
"Hello, my love, I know it's been a year since I've been gone,
I hope it hasn't been too hard for you to overcome."

"I know it must be lonely and the pain is very real.
For if it was the other way I know how I would feel.
The love we shared made everything so beautiful in life.
I loved you more than words can say, you were the perfect wife."

"You were my friend and lover, you fulfilled my every need.
I know it's only been a year, but please try not to grieve.
I want you to be happy even when you shed your tears.
That is why the roses will be sent to you for years."

"When you get these roses think of all the happiness,
That we had together and how both of us were blessed.
I have always loved you and I know I always will,
But, my love, you must go on you have some living still."

"Please try to find happiness while living out your days.
I know it is not easy, but I hope you find some ways.
The roses will come every year and they will only stop,
When your door's not answered when the florist stops to knock."

"He will come five times that day in case you have gone out,
But after his last visit he will know without a doubt,
To take the roses to the place where I've instructed him,
And place the roses where we are, together once again."

Publicado por almahperditae em 11:37 PM | Comentários (2)

dezembro 14, 2003

E se as palavras matassem
E nem uma lágrima guardassem
O que seria de mim?

Por todo o lado à procura
Mesmo nas ruas da amargura,
De alguem só para mim!

E nem o Sol nem a Lua
Trouxeram uma palavra tua
A este ser á beira do fim...

E o meu destino está morto
Como um velho barco sem porto
E o que vai ser de mim?

(poema de RDP)

Publicado por almahperditae em 11:52 PM | Comentários (2)

"Rosa Branca Ao Peito"











Teu corpinho adolescente cheira a princípio do mundo.
Ainda está por soprar a brisa que há-de agitar a tua seara.
Ainda está por romper a seara que há-de rasgar o teu solo fecundo.
Ainda está por arrotear o solo que há-de sorver a água clara.
Ainda está por ascender a nuvem que há-de chover a tua chuva.
Ainda está por arder o sol que há-de evaporar a água da tua nuvem.

Mas tudo te espera desde o princípio do mundo:
a doce brisa, a verde seara, o solo fecundo.
Tudo te espera desde o princípio de tudo:
a água clara, a fofa nuvem, o sol agudo.

Tu sabes, tu sabes tudo.
Tu és como a doce brisa, a verde seara e o solo fecundo
que sabem tudo desde o princípio do mundo.
Tu és como a água clara, a fofa nuvem e o sol agudo
que desde o princípio do mundo sabem tudo.
O teu cabelo sabe que há-de crescer
e que há-de ser louro.
As tuas lágrimas sabem que hão-de correr
nas horas de choro
Os teus peitos sabem que hão-de estremecer
no dia do riso.
O teu rosto sabe que há-de enrubescer
quando for preciso.

Quando te sentires perdida
fecha os olhos e sorri.
Não tenhas medo da Vida
que a Vida vive por si.
Tu és como a doce brisa, a verde seara e o solo fecundo
que sabem tudo desde o princípio do mundo.
tu és como a água clara, a fofa nuvem e o sol agudo.
A tua inocência sabe tudo.


(poema de Antonio Gedeão
foto de Pedro Gomes em 1000 Imagens)

Publicado por almahperditae em 08:30 PM | Comentários (0)

dezembro 07, 2003

"Sex contains all, bodies, souls,
Meanings, proofs, purities, delicacies, results, promulgations,
Songs, commands, health, pride, the maternal mystery, the seminal
milk,
All hopes, benefactions, bestowals, all the passions, loves, beauties,
delights of the earth,
All the governments, judges, gods, follow'd persons of the earth,
These are contain'd in sex, as parts of itself, and justifications of
itself."

(Walt Whitman "A Woman waits for me")

Publicado por almahperditae em 12:33 PM | Comentários (0)

dezembro 05, 2003


Escrevo-te enquanto algo resvala, acaricia, foge
e eu procuro tocar-te com as sílabas do repouso
como se tocasse o vento ou só um pássaro ou uma folha.
Chegaste comigo ao fundo aberto sob um céu marinho,
sobre o qual se desenham as nuvens e as árvores.
Estamos na aurícola do coração do mundo.
O que perdemos ganhamo-lo na ondulação da terra.
Tudo o que queremos dizer sai dos lábios do ar
e é a felicidade da língua vegetal
ou a cabeça leve que se inclina para o oriente.
Ali tocamos um nó, uma sílaba verde, uma pedra de sangue
e um harmonioso astro se eleva como uma espádua fulgurante
enquanto um sopro fresco passa sobre as luzes e os lábios.


(António Ramos Rosa)

Publicado por almahperditae em 01:08 AM | Comentários (0)

novembro 22, 2003

Abdicação

(Fernando Pessoa)

Toma-me, ó noite eterna, nos teus braços
E chama-me teu filho.
Eu sou um rei
que voluntariamente abandonei

O meu trono de sonhos e cansaços.
Minha espada, pesada a braços lassos,
Em mão viris e calmas entreguei;
E meu cetro e coroa - eu os deixei
Na antecâmara, feitos em pedaços

Minha cota de malha, tão inútil,
Minhas esporas de um tinir tão fútil,
Deixei-as pela fria escadaria.

Despi a realeza, corpo e alma,
E regressei à noite antiga e calma
Como a paisagem ao morrer do dia.

Publicado por almahperditae em 01:00 AM | Comentários (3)

novembro 16, 2003

"Tabacaria"

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

(...)

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

(...)

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa,
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei-de pensar?

(...)

Mas o dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olhou-o com o desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, e eu deixarei versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?),
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.

O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o: é o Esteves sem metafísica.
(O dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o dono da Tabacaria sorriu.

(Fernando Pessoa / Alvaro de Campos)

Como este Poema é demasiado grande tomei a liberdade de cortar alguns versos. Aconselho a todos o visionamento deste poema simplesmente sublime (provavelmente o melhor texto alguma vez escrito por um Ser Humano) e para isso podem ir a este link

Publicado por almahperditae em 10:14 PM | Comentários (0)

novembro 14, 2003

O Menino Da Sua Mãe

No plano abandonado
Que a morta brisa aquece,
De balas trespassado
- Duas, de lado a lado -,
Jaz morto, e arrefece.

Raia-lhe a farda o sangue.
De braços estendidos,
Alvo, louro, exangue,
Fita com olhar langue
E cego os céus perdidos.

Tão jovem! que jovem era!
(Agora que idade tem?)
Filho único, a mãe lhe dera
Um nome e o mantivera:
"O menino da sua mãe".

Caiu-lhe da algibeira
A cigarreira breve.
Dera-lhe a mãe. Está inteira
E boa a cigarreira.
Ele é que já não serve.

De outra algibeira, alada
Ponta a roçar o solo,
A brancura embainhada
De um lenço... Deu-lho a criada
Velha que o trouxe ao colo.

Lá longe, em casa, há a prece:
"Que volte cedo, e bem!"
(Malhas que o Império tece!)
Jaz morto, e apodrece,
O menino da sua mãe.


(Fernando Pessoa)


Publicado por almahperditae em 10:22 PM | Comentários (0)

Angelic Wings Of A Raven... A Smile Rips My Darkness...

She walks in beauty, like the night
Of cloudless climes and starry skies;
And all that's best of dark and bright
Meet in her aspect and her eyes:
Thus mellowed to that tender light
Which heaven to gaudy day denies.

One shade the more, one ray the less,
Had half impaired the nameless grace
Which waves in every raven tress,
Or softly lightens o'er her face;
Where thoughts serenely sweet express
How pure, how dear their dwelling-place.

And on that cheek, and o'er that brow,
So soft. so calm, yet eloquent,
The smiles that win, the tints that glow,
But tell of days in goodness spent,
A mind at peace with all below,
A heart whose love is innocent.


(Lord Byron)

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novembro 13, 2003

Annabel Lee


(foto de Maria Clarinda Galante "Nu petrificado..." em 1000 Imagens)


It was many and many a year ago,
In a kingdom by the sea,
That a maiden there lived whom you may know
By the name of ANNABEL LEE;
And this maiden she lived with no other thought
Than to love and be loved by me.

I was a child and she was a child,
In this kingdom by the sea;
But we loved with a love that was more than love-
I and my Annabel Lee;
With a love that the winged seraphs of heaven
Coveted her and me.

And this was the reason that, long ago,
In this kingdom by the sea,
A wind blew out of a cloud, chilling
My beautiful Annabel Lee;
So that her highborn kinsman came
And bore her away from me,
To shut her up in a sepulchre
In this kingdom by the sea.

The angels, not half so happy in heaven,
Went envying her and me-
Yes!- that was the reason (as all men know,
In this kingdom by the sea)
That the wind came out of the cloud by night,
Chilling and killing my Annabel Lee.

But our love it was stronger by far than the love
Of those who were older than we-
Of many far wiser than we-
And neither the angels in heaven above,
Nor the demons down under the sea,
Can ever dissever my soul from the soul
Of the beautiful Annabel Lee.

For the moon never beams without bringing me dreams
Of the beautiful Annabel Lee;
And the stars never rise but I feel the bright eyes
Of the beautiful Annabel Lee;
And so, all the night-tide, I lie down by the side
Of my darling- my darling- my life and my bride,
In the sepulchre there by the sea,
In her tomb by the sounding sea.

Edgar Allan Poe

Publicado por almahperditae em 01:23 AM | Comentários (0)

novembro 06, 2003

Ó retrato da Morte! Ó Noite

(Bocage)

Ó retrato da Morte! Ó Noite amiga,
Por cuja escuridão suspiro há tanto!
Calada testemunha de meu pranto,
De meus desgostos secretária antiga!

Pois manda Amor que a ti sòmente os diga
Dá-lhes pio agasalho no teu manto;
Ouve-os, como costumas, ouve, enquanto
Dorme a cruel que a delirar me obriga.

E vós, ó cortesãos da escuridade,
Fantasmas vagos, mochos piadores,
Inimigos, como eu, da claridade!

Em bandos acudi aos meus clamores;
Quero a vossa medonha sociedade,
Quero fartar o meu coração de horrores.

Publicado por almahperditae em 01:46 AM | Comentários (0)

agosto 23, 2003

no concreto fluir das ondas, um anjo devolveu-me a minha humanidade

No mar passa de onda em onda repetido
O meu nome fantástico e secreto
Que só os anjos do vento reconhecem
Quando os encontro e perco de repente...


Sophia de Mello Breyner Andresen

Publicado por almahperditae em 10:42 PM | Comentários (0)